A legenda do  “povo ungido na terra da promissão” robustece a permanência de “núcleos” de domínio do movimento espírita brasileiro 

Jun 13th, 2018 | By | Category: Artigos

 

abraao

Trafega há alguns anos nas redes sociais um vídeo cuja temática versa sobre a confusa “missão” do Brasil como “Coração do mundo e pátria do Evangelho”. Assistimos o jornalista André Trigueiro fazendo citações, mencionando uma pesquisa que aponta para tão-somente 11% dos brasileiros que se declaram voluntários na área da filantropia.

Trigueiro alega que o Brasil é o país com maior número absoluto de homicídios. Na hipotética “pátria do Evangelho” outra questão gravíssima é o problema do aborto. Segundo estimativa da Organização Pan-Americana da Saúde ocorrem no Brasil mais de 1 (um) milhão de abortos por ano. No Brasil são roubados mais de 400 mil veículos, o que dá uma média de 1 (um) veículo a cada minuto.

O jornalista destaca ainda que ocorre no Brasil o maior escândalo de corrupção da história humana, revelado a partir da “operação lava-jato”. Considerando os gigantescos valores financeiros desviados, é um episódio sem precedentes na história da humanidade. [1] Diante dessas informações instigantes, Trigueiro levanta a questão se realmente o Brasil é a “Pátria do Evangelho coração do mundo”.

Um dos oradores, “movido” por entusiasmo aguçado ousou aventurar determinadas e excêntricas anotações, visando explicar a “missão” do Brasil. O palestrante expôs que os espíritas brasileiros imaginam que o Brasil poderá ser um modelo político, econômico e social, e que desfilará como uma grande “rainha” (sic…) diante de um mundo se ajoelhando diante dela. Falou sobre Jesus tentando convocar seus transcendentes colaboradores para improvisarem um inventário do cristianismo na Terra. Descreveu a transfiguração do semblante de Jesus humilhado. Citou o Cristo modificando estratégias, procurando na Terra um ambiente geográfico especialmente “magnetizado”. E nos seus estranhos arroubos o orador se superou ao descrever o Brasil como “o coração do mundo”, porque aqui se encontra a maior concentração de magnetismo do planeta (?!). Afirmou também que só reencarnariam no Brasil as turbas de espíritos infelizes que se encontravam nas regiões mais tenebrosas do umbral, ou seja, os espíritos que faliram nesses últimos milênios, quais sejam os soldados das cruzadas, os inquisidores, os políticos corruptos de todos os tempos, os generais homicidas da história, os religiosos que se desvirtuaram.

A “cereja do bolo” adveio com a citação da máxima do Cristo aos seus colaboradores de então: “eu não vim para os sãos, mas para os doentes”. Deste modo, o Brasil nada mais é do que um nosocômio, e não uma galeria de arte e nem vitrine de ídolos e “santos” (imagine se fosse, hein…?). Conclui então o aplaudidíssimo palestrante que no Brasil está reunido o que há de pior no caráter dos humanos, por isso é um grande hospital do Cristo para a regeneração dos réprobos da humanidade.

Todos sabemos: nenhuma nação é e nem pode ser espiritualmente mais importante do que as outras na Terra. Além disso, o brasileiro se encontra espiritual e eticamente muito aquém a inúmeras nações mais afáveis e dignas, especialmente no quesito probidade.

Como “hospital” torna mais evidente que o Brasil não detém nenhuma missão espiritual peculiar diante do mundo. Até mesmo porque nossa pátria é um dos países menos filantrópicos, sopesando a doações financeiras e dedicação caritativa voluntária do serviço ao semelhante. Considerando ainda todas as aberrações políticas e sociais, o que sobraria nesse contexto para o suposto “hospital” ou “povo escolhido”? Seria o trabalho dos espíritas leigos teleguiados pela “Cúria candanga”? Obviamente que não, pois conhecemos como se encontra a confusa prática doutrinária no Brasil.

Por conseguinte, se compararmos com o mundo não necessitamos fazer um esforço exagerado para observar os exemplos de civilidade, respeito às leis e progresso que nos têm dado outras nações. Quem mantém e difunde sofregamente a ilusão de “Brasil coração do Mundo…” é a instituição centralizadora do M.E.B. a fim de manter o poderio que tem domado com o seu universo místico e historicamente roustanguista, a massa de manobra (espíritas neófitos) conduzida sob o tacão de uma ideologia primária e dominante, anulando a possibilidade de um trajeto histórico e protagonista do espírita mais leal a Kardec.

Creio ser urgentemente necessário que os líderes e presidentes das federações estaduais (bispos de dioceses?!) consigam se alforriar da “lavagem cerebral” ameaçadora que a “Cúria candanga” lhes inflige sob o tacão do fadigoso jargão “quem não está com a “Cúria da L2 Norte de Brasília” é desagregador e está com a treva”.

Os decênios passam, e a Cúria candanga arrasta multidões enceguecidas com ela. É hora de repensarmos esse nativismo bairrista que assemelha-se à ilha da fantasia kardeciana tupiniquim. A verdadeira pátria do Evangelho é e deve ser o coração de cada cidadão que se pautar nos preceitos da honestidade, da liberdade e da bondade, ainda que por qualquer circunstância esteja habitando países longínquos.

Como espírita brasileiro, confesso que sou um entusiasta do Brasil e da potencialidade daqueles bons cidadãos brasileiros, bem como de suas virtudes e cultura. Todavia enfatizo que essa visão de que somos ou seríamos uma espécie de “povo ungido” na “terra da promissão” é extremamente alucinante e só reforça a conservação de núcleos de poder (que se revezam entre si) no movimento espírita brasileiro.

Jorge Hessen

jorgehessen@gmail.com

Referência:

{1} Debate realizado durante o 4º Congresso Espírita do Estado do Rio de Janeiro, em outubro de 2015

 

3 Comments to “A legenda do  “povo ungido na terra da promissão” robustece a permanência de “núcleos” de domínio do movimento espírita brasileiro ”

  1. Vanessa diz:

    Caríssimo Jorge,
    Finalmente, a lucidez providencial transcrita sob a claridade meridiana do bom senso.
    Congratulo-te pela oportuna reflexão e coaduno exatamente com tuas palavras. Há que ser lembrada a rogativa atemporal do apóstolo dos Gentios: ” A letra mata, mas o Espírito vivifica”!
    Gratidão imensa por trazer-nos esses clarões de serenidade.
    Fraternal abraço da tua seguidora,
    Vanessa

    2 Coríntios 3
    1 Será que com isso, estamos começando a nos recomendar a nós mesmos novamente? Será que precisamos, como alguns, de cartas de recomendação para vocês ou da parte de vocês?

    2 Vocês mesmos são a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos.

    3 Vocês demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos.

    4 Tal é a confiança que temos diante de Deus, por meio de Cristo.

    5 Não que possamos reivindicar qualquer coisa com base em nossos próprios méritos, mas a nossa capacidade vem de Deus.

    6 Ele nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica.

    7 O ministério que trouxe a morte foi gravado com letras em pedras; mas esse ministério veio com tal glória que os israelitas não podiam fixar os olhos na face de Moisés por causa do resplendor do seu rosto, ainda que desvanecente.

    8 Não será o ministério do Espírito ainda muito mais glorioso?

    9 Se era glorioso o ministério que trouxe condenação, quanto mais glorioso será o ministério que produz justiça!

    10 Pois o que outrora foi glorioso, agora não tem glória, em comparação com a glória insuperável.

    11 E se o que estava se desvanecendo se manifestou com glória, quanto maior será a glória do que permanece!

    12 Portanto, visto que temos tal esperança, mostramos muita confiança.

    13 Não somos como Moisés, que colocava um véu sobre a face para que os israelitas não contemplassem o resplendor que se desvanecia.

    14 Na verdade as mentes deles se fecharam, pois até hoje o mesmo véu permanece quando é lida a antiga aliança. Não foi retirado, porque é somente em Cristo que ele é removido.

    15 De fato, até o dia de hoje, quando Moisés é lido, um véu cobre os seus corações.

    16 Mas quando alguém se converte ao Senhor, o véu é retirado.

    17 Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade.

    18 E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito.

  2. Efigenia Gerisch diz:

    Caro irmão,

    há muito que a vaidade e o orgulho cegou grande parte daqueles que se elegeram representantes do Espiritismo no Brasil.
    Os palestrantes falam (com entusiasmo esbravejante) para platéias passivas quem continuam
    lotando hotéis de luxo e do lado de fora nas ruas nem percebem que cruzam com irmãos em miséria do corpo e da alma.
    Como pode um grupo de pessoas se reunirem para falar de Jesus se em alguns metros alguém está sem teto e sem comida?
    E desde encontro não discutirem a OBRA que precisa ser feita?
    Pra mim parece pura insanidade. E no fim dos eventos ainda se pousam para fotos.
    Loucura.

    Fraternalmente

  3. PEDRO ILHO diz:

    Que o Brasil será o Coração do mundo não tenho dúvidas, isso se não for hoje será um dia. Temos que considerar que o Brasil ainda é um país jovem se compararmos com os países da Europa. O Brasil é cheio de meios para se tornar um país do futuro. temos esperança que tudo isso que está acontecendo no Brasil já é uma providência de Deus, ou você acha que nunca houve corrupção no brasil? Se não houve corrupção foi na época dos governos militares. Tenho esperança que a partir de 2019 a coisa mudará para melhor, SE DEUS QUISER!!!!!!!!!!!

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