DESIGUALDADE SOCIAL E REENCARNAÇÃO

Abr 25th, 2016 | By | Category: Artigos

desiAuroville é uma pequena cidade localizada na Índia. Foi fundada em 1968 pelo casal Sri Aurobindo e Mirra Alfassa. Ali, todos os moradores recebem um salário mínimo e podem trabalhar com o que se adaptem. É uma urbe que não tem políticos ou classes sociais. Não há religião oficial e o dinheiro é de somenos importância. Atualmente, cerca de duas mil pessoas moram na cidade, que tem capacidade de acolher até 50 mil habitantes.

É uma cidade autossustentável, tem campos cultiváveis, pequenas fábricas, restaurantes, padarias, hospitais, escolas e cinemas, além de um pequeno jornal local, tudo alimentado por energia solar. Não existem prefeito, governador ou secretários. Sempre que surge um problema, uma assembleia é convocada e os cidadãos da comunidade elegem um conselho para solucioná-lo.

Os habitantes de Auroville são livres para exercer seus rituais e acreditar no que quiserem, desde que não incomodem ou tentem pregar suas crenças aos concidadãos. Para residir na cidade, o interessado precisa comprar uma casa, que custa em média 3 mil dólares. No primeiro ano que passa na cidade, o novato é observado e avaliado pela comunidade. Depois de um ano, período que eles chamam de “estágio”, os cidadãos de Auroville decidem se a pessoa pode ou não permanecer entre eles.

Observamos ser um lugar apinhado de utopias e talvez não muito encantador, pois com meio século de existência e com capacidade para receber até 50 mil moradores, hoje só habitam cerca de duas mil pessoas. Como disse, deve ser um lugar pouco atraente, ou os cidadãos de Auroville devem ser intransigentes (pouco democráticos, diria!). Pode ser que o processo de seleção pela comunidade sobre os que podem ou não residir na cidade (após um ano de “estágio” no local) seja muito rígido ou discriminatório, sabe-se lá!…

Talvez tenham conquistado em Auroville a virtual igualdade dos “bens”, mas convidamos os leitores a meditarem aqui acerca da teoria da desigualdade das riquezas conforme ensinou Kardec, demonstrando que o princípio da pluralidade das existências pode oferecer a real explicação sobre as dessemelhanças dos “bens” na Terra.

Sabemos que há “espíritas progressistas”, que apontam Kardec como um ingênuo por ter explanado sobre a desigualdade das riquezas explicando-a sob a lei da reencarnação. Evocam tais “espíritas progressistas” que o proprietário dos meios de produção gera riquezas só para si, enquanto aos que trabalham resta o salário, representando apenas uma parte da riqueza gerada. Creem no lema “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”, por isso os “espíritas progressistas” divergem de Kardec, dizendo que o Codificador se equivocou quando afirmou que é um ponto matematicamente demonstrado que a fortuna igualmente repartida daria a cada qual uma parte mínima e insuficiente.

Kardec assegurou também que se houvesse a repartição dos bens materiais (riqueza), o equilíbrio estaria rompido em pouco tempo, pela diversidade dos caracteres e das aptidões. Tal verdade espírita é intolerável para os “espíritas progressistas”, pois estes defendem a distribuição irrestrita dos bens produzidos pelas empresas a fim de que os proletários possam viver na prerrogativa e violência ideológica do infausto igualitarismo; os “espíritas progressistas” idealizam uma sociedade altruísta (à moda deles), sem valorizar as legítimas conquistas individuais para a boa performance das estruturas sociais.

Quando Kardec afirmou que se a repartição da riqueza fosse possível e durável, cada um tendo apenas do que viver, e que seria o aniquilamento de todos os grandes trabalhos que concorrem para o progresso e o bem-estar da Humanidade, os “espíritas progressistas” blasonaram que isso representa uma blasfêmia, pois as tecnologias produzidas têm atendido fundamentalmente às necessidades supérfluas da grande massa de consumidores – portanto, pessoas que já possuem o necessário podem utilizar a sua riqueza para o consumo do supérfluo.

Gritam furiosamente os tais “espíritas progressistas”, levantando por que supor que Deus é o agente da concentração de riquezas? Bradam, então, que a riqueza concentra-se pelo simples fato de que quem já possui fortuna tem mais chances de vencer num mercado competitivo, e assim acumular mais riqueza num movimento crescente de concentração de capital. Como se observa uma, dedução horizontalizada, superficial, mecanicista e nada razoável dos “insurgentes progressistas”, que insistem em dizer que isso não significa que devamos “ler a realidade” como um “plano de Deus”.

Creem os “progressistas” que a riqueza pode e deve ser concentrada sob a propriedade coletiva (sic), visando exclusivamente o benefício geral da humanidade, não permitindo a desigualdade de riqueza, pois assim toda a sociedade acaba “refém” da decisão do endinheirado de bem ou mal utilizar a riqueza. Além do quê, a sua apropriação fica sendo necessariamente injusta, já que os trabalhadores que recebem salário como remuneração pela venda de sua força de trabalho não ganham integralmente por toda a riqueza por eles produzida.

Expõem ainda os “progressistas” que em dez anos, no Brasil, as desordens distributivas estão na ordem do dia, pois os ricos se tornaram mais ricos, os pobres se tornaram menos pobres e uma certa classe média tradicional viu sua posição relativa em relação a essas duas outras camadas prejudicada. A classe média perdeu status. Os ricos se distanciaram e os pobres se aproximaram, daí o conflito atual. Que saibam utilizar a inteligência a fim de entenderem que “as classes [sociais] existiram e existirão sempre, o que porém deve preocupar, e é racional estabelecer a solidariedade entre elas, a conciliação de seus interesses, a multiplicação urgente das leis de assistência social, únicas alavancas mantenedoras da ordem.”[1]

É bem verdade que a desigualdade social ou econômica é um problema presente em todos os países (ricos ou pobres), decorrente da má distribuição de renda e, ademais, pela falta de investimento na área social. Compreendemos que uma repartição mais equitativa dos “bens” é imprescindível. Há “trocentas” teorias sociológicas, mil sistemas diferentes, tendendo a reformar a situação das classes desprovidas, a assegurar a cada um, pelo menos, o estritamente necessário. Ótimo!

Mas, infelizmente, noutro cenário, ao invés da recíproca tolerância que deveria aproximar os homens, a fim de lhes permitir estudar em conjunto e resolver os mais graves problemas sociais, tem sido com violência e atualmente no Brasil com ameaça na boca (verbal e saliva hostil ou “cuspidela”) que o militante reivindica seu lugar na ágape social. Outrossim, é uma lástima ver o endinheirado aguilhoado no seu egoísmo e recusando a ofertar aos famintos as menores migalhas da sua fortuna. Dessa forma, um muro tem separado ambos, e os quiproquós, as selvagerias, as cupidezes, as animosidades, os desrespeitos acumulam-se dia a dia.

Politicamente sabemos que as leis elaboradas pelos legisladores podem, de momento, modificar o exterior, mas não logram mudar a intimidade do coração humano; daí vem serem os decretos de duração efêmera e quase sempre seguidos de uma reação mais depravada. A origem do mal reside no egoísmo e no orgulho. Os abusos de toda espécie cessarão quando os homens se regerem pela lei da caridade.

Para confirmar as magníficas teses de Kardec sobre o assunto, reflitamos com Emmanuel: “A desigualdade social é o mais elevado testemunho da verdade da reencarnação, mediante a qual cada espírito tem sua posição definida de regeneração e resgate. Nesse caso, consideramos que a pobreza, a miséria, a guerra, a ignorância, como outras calamidades coletivas, são enfermidades do organismo social, devido à situação de prova da quase generalidade dos seus membros. Cessada a causa patogênica com a iluminação espiritual de todos em Jesus-Cristo, a moléstia coletiva estará eliminada dos ambientes humanos”.[2]

Jorge Hessen

LIVROS E E-BOOKS GRATUITOS

Referências bibliográficas:

[1]       Xavier Francisco Cândido. Palavras do infinito, III parte, ditado pelo Espírito Emmanuel, SP: Ed. LAKE, 1936

[2]       Xavier , Francisco Cândido. O Consolador, pergunta 55, ditado pelo Espírito Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 1978

Tags: , , ,

5 Comments to “DESIGUALDADE SOCIAL E REENCARNAÇÃO”

  1. GERALDO MAGELA MIRANDA diz:

    Essa questão da desigualdade dá pano pra manga, e acho que fica mais bem esclarecido sob a ótica reencarnatória, de acordo com o passado de cada um.
    Grande abraço.
    Geraldo Magela Miranda

  2. Ione diz:

    Sem dúvida amigo Jorge Hessen, e a palavra de Emmanuel sempre sintetizando de forma admirável dá o tom preciso de que assim deva ser, explicando claramente a reencarnação. Os espíritas “progressistas”, geralmente não entendem Kardec, e, se não entendem é porque não estudam o “Bom senso encarnado”. Forte abraço
    Ione

  3. Irmão W diz:

    Olá

    Caro amigo…

    Mais um tema sobre a questão da reencarnação….

    A nossa vida imortal de nosso espírito e as suas múltiplas existências… E parecido com um livro…É cada nova existência e igual a um capítulo…Que se soma….A este livro imortal….

    Ao reencarnar o espírito começa a escrever um novo capítulo….Deste livro…

    Muitas pessoas em questão atualmente… Se revoltam por nascer em condições de parcos recursos… Se esquecem…. Que eles analisam o livro da vida atualmente… Com este novo capítulo que começou a escrever….

    Quantas pessoas que em outras vidas…. Eram ricos materialmente… E exploraram o seu próximo… Quantos fizeram da riqueza uma porta aberta a tendências negativas…

    Ou seja aqueles que abusaram em outra vida… Vão ter pouco em outra vida… Não e punição…E lei da vida….E acaba se transformando em provações…

    Quando Cristo disse…

    E falou-lhe de muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis que o semeador saiu … em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado…

    Sendo assim… Vamos dividir os tesouros materialmente e espiritualmente… Para o engrandecimento da humanidade….

    Vamos confiar…. Neste pai divino que conhece a cada um dos seus filhos…

    Fica com Deus

    Wanderlei

  4. SERGIO DE JESUS ROSSI diz:

    Caro Amigo e Irmão,

    Recebi o seu artigo “Desigualdade Social e Reencarnação” por meio do link abaixo, enviado pelo portal de Erealdo Rocelhou.
    Pude admirar, mais uma vez, a persistente coerência de sua posição doutrinária, que tenho a satisfação de endossar.
    Teorias sociais e políticas sobre a desigualdade e a sua solução sempre existiram em profusão, poucas delas, raríssimas, com proposições realistas, a maioria, simplesmente fantasiosa.
    Não é fenômeno recente, cabendo lembrar o livro “Utopia”, de 1516, em que Thomas More idealiza uma sociedade igualitária, onde todos eram felizes e não existia o dinheiro, além de introduzir o neologismo que deu nome à sua obra; até mesmo a escravidão era justificada em tortuoso raciocínio que defendia o bem-estar de suas vítimas.
    A perfeição era tanta que muitos críticos interpretaram o texto como uma ironia bem elaborada, o que não foi o caso dos socialistas e comunistas que, séculos depois, se identificariam naquela alegoria, a ponto de o seu autor se tornar um raro representante da decadência ocidental que era respeitado no paraíso de Lênin e Stálin . . .
    É desconcertante observar que a implantação do éden marxista custou a vida de duzentos milhões de pessoas no século XX.
    Mas, uma experiência inegavelmente positiva tem sido o kibutz, sistema comunitário que teve participação muito importante na formação e consolidação de Israel como nação, embora atualmente seja praticamente uma cooperativa com objetivos empresariais, muito distante do idealismo inicial.
    De qualquer modo, sejam radicais e impositivas como a teoria socialista ou liberais e bem intencionadas como o coletivismo judaico, essas iniciativas ignoram, ou inibem fortemente, diversas características essências do ser humano, como iniciativa, ambição, individualidade e . . . liberdade !
    Kardec era detentor de imensa cultura e insuperável experiência, obtida em muitos anos de convívio com a sociedade de sua época, suficientes para um profundo conhecimento das motivações humanas, muitas delas afirmativas e mesmo irresistíveis.
    Ele sabia, como ninguém, que a igualdade entre os homens jamais será atingida pela força, ainda que amparada pela lei, até o dia em que os seus beneficiários venham realmente a desejá-la e, principalmente, estejam em condição moral de vivenciá-la.
    Entendo que essa não é uma conquista para este mundo ainda dominado por necessidades materiais que demandam atendimento, induzindo à inevitável competição, fórmula decerto imperfeita mas historicamente menos ruim que todas as alternativas já tentadas, e sempre muito mais justa por se basear no mérito.
    Nosso Criador e os espíritos perfeitos exercem o tratamento indiferenciado para todas as criaturas, porque as amam em intensidade necessariamente máxima.
    Nós, muito imperfeitos, aprenderemos como sempre o fizemos, errando bastante, refazendo e finalmente acertando, em processo cujo termo sequer podemos imaginar, mas temos a convicção de que lá chegaremos, habitando ambientes em que a moralidade imperará e a matéria será secundária e dispensável.
    Devemos sonhar com esse futuro e persegui-lo, mas nunca o forjaremos pela força.
    Desculpe o discurso, grande abraço,

    Sérgio de Jesus Rossi

  5. Barbara diz:

    Caro irmão,

    Texto muito elucidativo. Eu sequer sabia da exitência de “Espíritas Progessitas”. Ora, os espíritos não vieram a nós para perguntar nossa opinião ou abrir debate. Pensam certas pessoas que estamos numa sala de aula de alguma universidade? Eles vieram nos trazer as Leis de Deus, vieram nos explicar como funcionam as coisas, não vieram perguntar nossa opinião. As coisas funcionam dessa maneira. As pessoas são livres para procurar outras religiões, caso o Espiritismo não esteja suprindo suas necessidades, por assim dizer. É muita pretensão querer mudar uma religião ou questionar Kardec e Emmanuel! Se me lembro bem, em ‘A Caminho da Luz’ Emmanuel também deixa claro que as teorias de igualdade social são absurdas. Será que algum espírita acredita que Jesus haveria de permitir que Emmanuel passasse uma mensagem a nós que não estivesse 100% de acordo com as leis de Deus? Ou será que nem se deram ao trabalho de ler as obras?

    A soberba humana não tem mesmo limites!

    Deus abençoe!

Deixe um comentário