DINHEIRO

Jun 14th, 2009 | By | Category: Artigos
jorge_hessen_2009Comunidades de várias regiões brasileiras estão aprendendo a enfrentar a falta de dinheiro [aquele que compra qualquer coisa, em qualquer lugar]. Adotaram um dinheiro novo. É a moeda social. Moeda Social Local Circulante, também chamada de circulante local, complementar ao Real (Moeda Brasileira – R$), criada pelo Banco Comunitário. Historicamente, a proposta de se criar alternativas dessa espécie veio à tona durante os anos 1980, numa vila próxima à cidade de Vancouver, no Canadá. Michael Linton, um analista de sistemas, colocou em vigor o Lets (Local exchange trading system), quando o poder aquisitivo local decaiu em razão da recessão econômica advinda com a crise na indústria madeireira e a transferência de uma base aérea dos EUA para outra província. O Lets se configura como um clube de troca, onde o dinheiro oficial é substituído por uma moeda própria.
As moedas sociais asseguram o desenvolvimento ao favorecer que a riqueza gerada no local circule na própria comunidade. O dinheiro é um instrumento da circulação de mercadorias – o valor de troca dos produtos no sistema capitalista é expresso em moedas, através dos preços. Serve como unidade de medida para se efetuar essas trocas. A moeda social surge na economia solidária como alternativa ao escambo, e possui características próprias. Porém, na prática, o mercadinho solidário funciona como escambo da seguinte forma: a pessoa chega com um potinho de doce de leite, que ela faz com um pouquinho de leite e açúcar, mas ela precisa do macarrão. No local, ela chega e troca o doce de leite pelo macarrão que precisa. Isso é o que ela pode fazer e é a possibilidade que tem de se sustentar com o que produz. A idéia das moedas sociais é essa mesma: mostrar que amizade e união fazem economia. Substituir o “cada um por si” do mundo real e dos reais, por um lugar onde “todos são por um e um por todos”.
Em verdade, o dinheiro é neutro – nem é bom, nem é mau em si. Utilizado para o bem, dinheiro é instrumento de Deus. Porém, cobiçado, ou se dele fizermos mau uso, dinheiro é instrumento de infelicidade. Na parábola dos talentos, Jesus mostra que lucro, longe de ser mau, é o alvo de trabalho e investimentos. Ao mesmo tempo, nos ensina que o que se ganha deve ser usado para os propósitos do bem. Na parábola, a condenação cai sobre o homem que não usa sua oportunidade – dinheiro é para usar, não para esconder ou guardar. É como o sangue que precisa circular no organismo social. Se ficar estagnado, provoca a “trombose” na sociedade. Logo, o dinheiro que ganhamos deve ser usado nesta ordem: assistencia social, compra do mês, contas e prestações, outras necessidades, poupança, lazer e compras avulsas.
Um dos pontos cruciais da tese epicurista é que, se temos dinheiro e não temos amigos, nada temos. Jamais seremos livres, e nunca nos iremos sentir verdadeiramente felizes se não optarmos por uma vida baseada na reflexão. Por que, então, escolhemos coisas caras se elas não podem nos trazer alegria extraordinária? De acordo com Epicuro, somos influenciados por “opiniões vãs”, que não refletem a hierarquia natural de nossas necessidades, enfatizando o luxo e a riqueza, e raramente a amizade, a liberdade e a reflexão. Para muitos fanáticos pelo dinheiro, o Ter é mais importante que o Ser. “Nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.” (1)
Não estamos tratando, aqui, de exploração comercial do dinheiro. Porém, de uma nova maneira de promover a integração das pessoas ao mercado de trabalho. Valorização do ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica. O circulante local tem lastro no Real (R$), ou seja, para cada moeda emitida, existe, no banco comunitário, um correspondente em Real. (2) Como experiência, a Alemanha se tornou um verdadeiro laboratório de projetos de moedas sociais desde 2003, e há mais de 50 projetos em desenvolvimento.
Não podemos dizer que o dinheiro é instrumento do mal, muito pelo contrário, pois o dinheiro é suor convertido em cifrão. É urgente que lhe demos funções nobres, lembrando que a moeda no bem faz prodígios de amor. Porém, vale refletir o preceito de Paulo, acima, qual seja: “tendo sustento e com o que nos cobrirmos, estejamos, com isso, contentes”. Essa lição deve ser sempre ponderada quando nos faltam recursos financeiros. A circulação do dinheiro é uma condição importante para que a prosperidade apareça. Porém, raros são os indivíduos que mantêm uma relação equilibrada com o dinheiro, sem traumas, sem culpas, sem excessos de qualquer natureza.
Dinheiro e avareza não se deveriam misturar, pois os avarentos não gostam de “meter a mão no bolso” e, quase sempre, deixam de colaborar, financeiramente, com as obras sociais. Há muitos confrades, ativos participantes nos trabalhos das inúmeras Instituições Espíritas, espalhadas pelo nosso País, que mudam de assunto, tão logo o apelo, que lhes são dirigidos, implique na emissão de um cheque ou na entrega de algumas cédulas para socorrer os mais necessitados. É comum observarmos companheiros nossos, apresentando claros sinais de uma vida confortável, portando-se como se não tivessem a mínima condição de ajudar o próximo através de um serviço de assistência social espírita.
Sempre que nos fixarmos a atenção no dinheiro, reflitamos nas aflições que ele pode suprimir. Meditemos em nosso saldo financeiro, ainda que mínimo, transformado em socorro a um enfermo ou em alegria de uma criança. “Frequentemente, a quantia que julgamos modesta e sem qualquer significação, uma vez aplicada em benefício de outrem, pode ser transubstanciada no reconforto e na benção de muitos.” (3) Com o passar do tempo, “observaremos a importância do dinheiro, à margem das próprias necessidades, por instrumento potencial de trabalho e educação, progresso e beneficência, à espera de nossas resoluções para construir e servir.” (4)


Jorge Hessen
E-Mail: jorgehessen@gmail.com
Site: http://jorgehessen.net
FONTES:
1 Cf. 1 Timóteo 6:6-10
2 As moedas são produzidas com componentes de segurança (papel moeda, marca d’água, código de barra, números serial) para evitar falsificação. Disponível no site http://www.bancopalmas.org.br/oktiva.net/1235/secao/10043 acesso em 10/04/09
3 Xavier, Francisco Cândido. Rumo Certo, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1971
4 idem
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