ENTREVISTA DO PRESIDENTE DA FEB PARA “O CONSOLADOR” – NA ÍNTEGRA

Mai 19th, 2013 | By | Category: Artigos

 

Entrevista_capa

Na entrevista que se segue, Cesar Perri fala à revista O Consolador sobre os desafios que enfrentará para coordenar o Movimento Espírita Brasileiro. Comenta ainda sobre obras mediúnicas polêmicas, eventos espíritas pagos, as obras de Emmanuel e André Luiz, 4º Congresso Espírita Brasileiro dentre outros temas. Dividida em duas partes, a conclusão desta entrevista será publicada na próxima edição desta revista.Radicado em Brasília, Cesar Perri vem trabalhando para serenar os desafios que afrontará para coordenar o Movimento Espírita Brasileiro.Antônio Cesar Perri de Carvalho (foto), atual presidente da Federação Espírita Brasileira, nasceu em Araçatuba (SP) e atualmente reside em Brasília (DF). Foi fundador de mocidade e de centro espírita, conselheiro e presidente da União Municipal Espírita de Araçatuba, diretor e presidente da USE –  União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, secretário geral do Conselho Federativo Nacional e membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional (CEI).

Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano7/311/principal.html

“Recentemente, foi aprovada a inserção de uma antiga campanha da USE ‘Comece pelo Começo’, ou seja, comece pelas obras de Kardec. Nós vamos introduzi-la também dentro da FEB”  (Antonio César Perri de Carvalho)

 

Proliferam no mercado editorial e nos meios de comunicação, em especial a internet, obras ditas espíritas, de valor duvidoso, quando não atentatórias aos postulados doutrinários. Como a FEB, Casa-Mater do Espiritismo, encara essa realidade e como pretende atuar no bom combate?

A FEB vive um problema, digamos, muito complexo, pois há obras bastante duvidosas e muito divulgadas no meio espírita. Se de um lado a FEB apontar os deslizes doutrinários, vão dizer que a instituição vai passar ideias do Index Librorum Prohibitorum. Até mesmo na internet surgem informações afirmando que a FEB fez essa proibição, o que não é verdade. Então, o procedimento que adotamos é o seguinte: evitamos, como instituição, fazer críticas a qualquer obra, mas sugerimos a leitura das boas obras já consagradas, razão pela qual estamos difundindo cada vez mais a necessidade da leitura das obras de Kardec. Recentemente, foi aprovada a inserção de uma antiga campanha da USE “Comece pelo Começo”, ou seja, comece pelas obras de Kardec. Nós vamos introduzi-la também dentro da FEB, junto a vários cursos, inclusive o ESDE. Optamos por esse caminho para fazer a divulgação da Doutrina Espírita.  

Nos Estados mais pobres da Federação, muitas casas espíritas refletem a carência material e estão à margem dos conteúdos veiculados pela internet. A inclusão digital apresenta-se como meio propício para que os conteúdos das obras básicas, obras complementares, a par dos demais conteúdos veiculados pela internet, cheguem aos irmãos vinculados a essas casas, com evidentes benefícios. Compreende-se que o equacionamento passa pelos recursos monetários para a aquisição de equipamentos informáticos e acesso à internet, a par do necessário treinamento. Como a FEB poderia auxiliar esses Centros Espíritas nessa direção?

Dentro da ideia da inclusão digital, a FEB criou o curso à distância. Já mantemos há dois anos dois cursos à distância. Um sobre “Orientação e funcionamento do centro espírita”, e o outro sobre o “Movimento Espírita”. E temos um terceiro, que é a preparação do tutor para ministrar um curso, porque não queremos um curso centralizado só com a equipe da FEB. Presentemente, com esses cursos, usamos tutores de várias regiões do país e que somam esforços. Este ano nós vamos soltar mais cursos pela FEB. Essa é uma vertente. Na outra, que vai depender de equipamentos, alguns colaboradores do trabalho espírita podem ajudar na distribuição de DVD’s contendo vídeo-aulas, e ainda a modalidade de conversa à distância, através de vídeoconferência.

Recentemente, estabelecemos um diálogo muito interessante: daqui das instalações da FEB conversamos com uma cidade do interior do Piauí. Um líder espírita do local teve a iniciativa de utilizar o computador com webcam e reunir todos os dirigentes espíritas da cidade e, em torno de uma mesa, eles conversaram comigo, trocaram ideias e foi muito interessante. Portanto, é uma experiência que está se iniciando. 

Sobre seus ombros pesam enormes responsabilidades. O irmão pretende partilhar com a comunidade espírita, na forma de consultas, audiências ou outros canais de comunicação, com o intuito de colher subsídios para tratar de matérias e temas importantes para o Movimento Espírita, além, obviamente, dos canais e mecanismos formais já existentes? 

Sim, nós temos ampliado esse ideal. Começamos a disponibilizar certos assuntos que eram decididos, por exemplo, só no âmbito da reunião do Conselho Federativo Nacional. Hoje mesmo colocamos assuntos a decidir pela internet para dirigentes de várias regiões, pedindo opinião para analisar, juntar e chegar a uma visão melhor e mais participativa em torno de um assunto dentro do Movimento Espírita. Estamos inicialmente ouvindo as 27 federações estaduais, mas nós queremos aumentar esse vínculo, da seguinte forma: antigamente, o Conselho Federativo Nacional tinha seis coordenadores de áreas. Nós replicamos isso nas regiões. Há quatro regiões do Brasil, e nós montamos seis comissões em nível regional para chegar mais perto da base, mais perto das unidades, de uma maneira que a decisão de um coordenador de área não será mais uma decisão individual, pois ele tem que ouvir os coordenadores das outras regiões do país. Isso nós já começamos a implementar, desde o final de 2012 ao início deste ano, e começamos também a estimular uma integração maior com as entidades especializadas. 

Um dos eixos da Doutrina é a ciência. Como a FEB está tratando esta questão junto à Academia e a outras fontes de conhecimento da atualidade? 

Veja, a FEB, por si só, sendo uma organização religiosa, e mesmo tendo nos seus quadros pessoas com formação acadêmica, eu entendo que não seria o caso de ela tomar posições de natureza científica, divergindo dos seus objetivos. Então qual é o caminho? Estamos fazendo parcerias com entidades especializadas. 

Com o crescente surgimento dessas entidades especializadas (Associação de Magistrados Espíritas, Associação Médico-Espírita do Brasil, Associação de Psicólogos Espíritas, Cruzada dos Militares Espíritas etc.), como deve se posicionar a FEB, considerando o aspecto restritivo e até elitista dessas entidades? Aceitar, entendendo que é um fenômeno passageiro, ou incentivar, acreditando que se trata de um evento positivo? 

Nem a FEB e nem o Conselho Federativo Nacional estimulam a formação de entidades especializadas. No início, essas instituições estavam sendo convidadas para integrar o CFN, porém, chegou-se à conclusão de que não era o caminho adequado, porque temos 27 estados e, de repente, essas instituições podem aumentar muito e comprometeriam a natureza e o objetivo do CFN. Mas começamos a discutir o tema. 

Há um projeto para criação do Conselho Nacional de Entidades Especializadas, com a finalidade de tratar determinados temas que um centro espírita ou as instituições federativas não teriam condições para discutir. A exemplo das questões jurídicas, que interessam ao Movimento Espírita, assuntos da área médica, ou mesmo na interface da própria psicologia. Então seriam tratadas nesse nível, e trazidas como uma cooperação e apoio ao Movimento Espírita. O que nós estamos pretendendo? De certa forma, viabilizar um objetivo conjunto a essas instituições, para elas assessorarem no que for possível. 

Já tivemos uma experiência interessante. O problema da descriminalização do aborto no Brasil, em que houve um momento extremamente delicado no ano de 2005. O que a FEB fez? Elaborou um documento doutrinário e distribuiu para todo o meio espírita, a título de esclarecimento. Todavia, não podemos apresentar esse documento aos Ministros do STF ou do STJ, ou aos parlamentares. Na época, houve uma reunião com a Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas e com a Associação Brasileira dos Médicos Espíritas e ambas fizeram um documento cientifico – um à luz da ciência jurídica e outro à luz da ciência médica – e apresentamos esses documentos. 

Os apontamentos foram bem aceitos e eles colaboraram para que o aborto não viesse a ser aprovado naquele momento no Brasil. Então, nós estamos vivendo algumas experiências assim nessa interface, sem estimular elitismos, que jamais seria nosso propósito, e nem estimular a criação de um clã; entretanto, aproveitar, talvez em conjunto com espíritas que têm determinada formação para trazer subsídios ao Movimento Espírita. É esse o foco. 

Diante da clara divisão que existe no Movimento Espírita, muitas vezes manifestada em posturas emocionalizadas e radicais, como a FEB deve conduzir clara e publicamente o tema Roustaing? Que iniciativas faltam para apaziguar ânimos? 

Nós já vivemos momentos bastante delicados no Movimento Espírita, que eu acompanhei muito de perto. Sobrevieram momentos muito complicados em algumas gestões Houve nessa interconexão um período em que o presidente Thiesen decidiu junto com o CFN que, conforme estabelece o Pacto Áureo, a base dos trabalhos federativos é a obra de Allan Kardec, e isso tem sido seguido até hoje. 

Nessas condições, fica muito claro que o CFN em termos de movimento nacional trabalha com a obra de Allan Kardec. De modo óbvio, respeitamos perfeitamente e convivemos com pessoas que gostam e estudam a obra de Roustaing mas não usamos isso como ponto de atrito ou desunião; procuramos buscar hoje o ponto de convergência, e esse eixo de estabilização do Movimento Espírita é a obra de Kardec. 

As obras de Roustaing continuam sendo republicadas? 

A obra de Roustaing consta do catálogo da FEB,e não há sua divulgação, por  exemplo, nas páginas da Revista Reformador e essa foi uma decisão adotada em gestões anteriores, mas respeitamos aqueles que pensam ou que adotam as obras de Roustaing. 

Numa sociedade mercadológica/mercantil em que eventos espíritas pagos em geral se apresentam em números cada vez maiores, qual deve ser a postura da FEB? 

Nós estamos ultimamente bastante preocupados com isso, inclusive resolvemos optar, por exemplo, que o 4º Congresso Espírita Brasileiro não seja realizado em Brasília, porque o custo da realização de um Congresso Brasileiro em Brasília é muito alto. Realizaremos quatro congressos simultâneos, e pela estimativa que temos, quatro eventos terão um dispêndio financeiro comparado a um só realizado em Brasília, então a questão aí é clara: temos que pensar na simplificação, excluir qualquer ostentação e aplicar os recursos ao mínimo necessário. Qual o cenário atual? Infelizmente, ainda não temos uma maneira adequada de angariar recursos ou forma de investimento de quem participa; porém, o que almejamos é minimizar os gastos. 

O procedimento que vamos adotar no 4º Congresso Espírita Brasileiro seguirá os moldes de uma experiência vivida em São Paulo, considerando os atuais congressos espíritas paulistas. O inscrito, quando paga a taxa de participação, está simultaneamente comprando um “vale-livros. Dessa forma, com o valor do vale, ele vai retirar na livraria do Congresso aquele valor em livros. Então, aí vai ficar por conta das editoras trabalhar também com um custo baixo para que as pessoas se beneficiem com o Congresso e com a obra, levando ainda um livro ou mais de um livro. 

Com o advento dos tablet`s, PDA`s, leitores digitais e o grandioso espaço que a internet propicia – vislumbrando um futuro próximo em que as novas gerações deixarão o papel de lado, não seria oportuno a FEB estabelecer um programa permanente de disponibilização de novos livros e obras espíritas para download, a preços módicos, em seu site, instituindo inclusive uma nova fonte de renda? 

Começamos agora, no segundo semestre de 2012, a disponibilizar para download livre, na internet, as antigas apostilas da FEB e as obras da Codificação. O que está sendo estudado pela editora FEB hoje é disponibilizar para download, por um preço acessível e com um selo de garantia da FEB, os demais livros. O que está ocorrendo? Há uma constatação de que quase todos os livros espíritas que estão disponíveis na internet para downloads não são autorizados. Já verificamos inclusive livros da FEB disponíveis para download com várias incorreções. São incompletos, com parágrafos e capítulos suprimidos, ou seja, a pessoa que acessa essas obras está sujeita a ser enganada; então o único caminho hoje, e não adianta a gente ficar brigando, é disponibilizá-los para download com o preço acessível e com o selo febiano de garantia. 

Temos obras espíritas incompletas e antigas sem revisão na rede mundial e, ainda, considerando as centenas de sites que liberam inúmeras obras espíritas para download gratuito, a FEB (respeitando a lei de direitos autorais), em relação às suas publicações, não poderia disponibilizar os mesmo títulos em seu site de maneira segura? 

Eu acho que esse é o caminho do futuro, porque nós estamos trabalhando também com os e-books. Já começamos, é tanto que a FEB já tem alguns disponíveis, como também o Conselho Espírita Internacional. E em algum momento eles estão disponibilizados no site Amazon, quer dizer, sediados nos EUA, mas nós estamos trabalhando a ideia de aumentar isso e disponibilizar aqui no Brasil, inclusive é um fato bastante interessante, porque no caso do Amazon, uma pessoa adquire um livro da FEB e do CEI, na Europa ou nos EUA, pelo mesmo preço do livro que seria editado aqui no Brasil, pelo mesmo preço. 

Será que livros gratuitos na internet gerariam impacto financeiro, em se tratando de uma prática comum atualmente? Será que os livros virtuais não dariam maior visibilidade ao portal da FEB, ou seja, não tornaria o site uma robusta ferramenta de divulgação da Nova Luz para o mundo? 

Considerando os livros virtuais, bem como as assinaturas de revistas – a FEB já tem a assinatura digital do Reformador, então a pessoa pode fazer a opção entre assinatura digital e assinatura digital e impressa. No caso dos livros, é o caminho do futuro, e pelas tendências que a gente tem escutado de mercado, isso não inviabiliza a impressão. Termos um livro, por exemplo, para ser lido ou acessado em algum momento pelo tablet. Fica às vezes muito complicado você ter esse livro inteiro, disponível o tempo todo para você, e fica caro se você fizer impressão caseira. É muito comum as pessoas utilizarem o recurso de pesquisa do livro digital para consulta rápida, mas ela quer muitas vezes saborear o livro impresso também, por isso creio que é um mercado novo no Brasil (nos EUA é muito desenvolvido o aspecto do livro digital). Entendo que a vida virtual é o presente e o futuro, e que nós temos que passar por uma transição.

(Parte 2 e final) 

Antônio Cesar Perri de Carvalho (foto), presidente da Federação Espírita Brasileira, nasceu em Araçatuba (SP) e atualmente reside em Brasília (DF). Foi fundador de mocidade e de centro espírita, conselheiro e presidente da União Municipal Espírita de Araçatuba, diretor e presidente da USE – União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, secretário geral do Conselho Federativo Nacional e membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional (CEI).

Na entrevista que nos concedeu, cuja primeira parte foi publicada na edição passada, Cesar Perri fala sobre os desafios que enfrentará para coordenar o Movimento Espírita Brasileiro. Comenta ainda sobre obras mediúnicas polêmicas, eventos espíritas pagos, as obras de Emmanuel e André Luiz, o 4º Congresso Espírita Brasileiro, dentre outros temas.

 As obras psicográficas de André Luiz e, principalmente, as assinadas por Emmanuel têm sido recriminadas por alguns segmentos do Movimento Espírita. Qual a sua opinião sobre esse comportamento? 

 Temos que respeitar essas tendências, assim como a diversidade de opinião, mas eu particularmente admiro profundamente os dois autores espirituais. Considero o Espírito Emmanuel o maior comentador do Novo Testamento. São nove livros publicados especificamente comentando os versículos do Novo Testamento, cinco deles pela FEB. É um aprofundamento à luz do Espiritismo que está disponível na Editora da FEB. 

 Os romances históricos dele também recuperam fatos, tendo sempre como pano de fundo o Cristianismo, e estão sendo pesquisados hoje por alguns companheiros nossos. Algumas informações históricas divulgadas foram confirmadas, datas e fatos, por exemplo. Na obra Paulo e Estêvão e no livro Renúncia, temos casos de uma pessoa que vem fazendo pesquisa exaustiva, comprovando que determinadas descrições que Emmanuel faz de Paris no séc. XVII e no séc. XVIII conferem com os registros da época. Como é que Chico Xavier, uma pessoa que cursou apenas o antigo grupo escolar, morando numa cidade do interior, na década de 30 e década de 40, que não tinha acesso a comunicação nenhuma, saberia disso? Emmanuel nos presenteou com uma literatura monumental. 

 Sobre André Luiz, ele não só detalha a relação entre mundo corpóreo e incorpóreo nas suas dimensões, como desde o livro Nosso Lar traz informações que são antecessoras de eventos científicos e de várias inovações. Na literatura de André Luiz encontramos não só o melhor entendimento da relação do psiquismo humano com o espírito imortal, e hoje a medicina vem estudando sobre isso, mas encontramos também a antecipação de inovações científicas e tecnológicas, com vários aparelhos e equipamentos que começaram a ser desenvolvidos a partir dos anos 50. Nós admiramos profundamente a obra de André Luiz e a obra de Emmanuel, e conseguimos estabelecer uma vinculação clara com a obra de Kardec, e isso é o mais importante. 

 Considerando a disseminação do Evangelho com as fundações de “igrejas”, visitas e, sobretudo, intercâmbios epistolares de Paulo de Tarso com os “chefes” dos núcleos cristãos, pode-se identificar, nos primórdios do Cristianismo, um movimento organizado para a unificação dos postulados da Segunda Revelação? 

 Nós identificamos claramente, nos primeiros cristãos, um trabalho que nos serve de inspiração e que estamos estimulando presentemente. Guardadas as devidas proporções, acreditamos que haja semelhança entre o trabalho dos cristãos primitivos e o Espiritismo. A rigor, a Codificação Espírita tem pouco mais de cento e cinquenta anos e isso é um período de tempo muito curto. A Doutrina se apresenta como Cristianismo Redivivo e o Consolador Prometido, que restabeleceria a Verdade e ensinaria algumas coisas a mais. Dessa forma, percebemos que os trabalhos pioneiros dos cristãos nos servem de estímulos, sim! 

 Quando Paulo de Tarso reunia os interessados do Cristianismo para o estudo da mensagem de Jesus, considerando as condições da época, fazia visitas, estimulava o intercâmbio, levava orientação e praticava trabalhos mediúnicos. Observemos que na Carta aos Coríntios consta a necessidade de “ordem no culto”. Quando olhamos as necessidades dessa “ordem”, claramente é como se fosse orientação para prática mediúnica, certa disciplina. Ao final do trabalho, quando percebeu que não teria mais condições de visitar a todos, Paulo foi inspirado pelo Espírito Estêvão para minutar as epístolas, ou seja, estimulou o contato próximo, direto; todavia também a distância. Identificamos aí a origem, vamos assim dizer, daquilo que hoje nós praticamos na imprensa espírita. 

 Essa era a razão predominante, o objetivo dele em ajudar, apoiar e orientar os primeiros agrupamentos cristãos, inclusive para a prática da caridade no verdadeiro sentido da palavra. Recordemos que existia entre eles muita solidariedade – dessa forma encontramos entre os primeiros cristãos as bases que inspiram o Movimento Espírita atual, com um detalhe fundamental: naquela época não existia hierarquia, não existia uma organização que preponderasse sobre outra; isso surgiu muito mais tardiamente, daí ser importante olharmos a vivência dos primeiros cristãos e verificarmos aquilo que aproveitamos como parte de reflexão e de orientação para o Movimento Espírita atual. 

 Allan Kardec comenta no item 334, cap. XXIX, d´O Livro dos Médiuns, que a formação do núcleo da grande família espírita um dia consorciaria todas as opiniões e uniria os homens por um único sentimento: o da fraternidade. Estaria aqui o Codificador formulando alguma programação doutrinária visando à unidade dos espíritas por intermédio de instituições colegiadas? 

 Allan Kardec trabalhou exatamente a ideia colegiada, e fala da fundamentação, do vínculo da fraternidade. Mas percebemos, igualmente, em “Obras Póstumas”, que ele nos orienta sobre o funcionamento das instituições. Anota sobre uma comissão não centralizada numa única pessoa e essa experiência que nos sugere foi uma ideia que serviu de referência para a atualidade. Notemos que a noção de presidencialismo, não só na questão político-partidária, como ocorre no Brasil, mas igualmente nas instituições espíritas, é um presidencialismo que às vezes excede o conceito do termo presidencialismo em si; muitas vezes chega a se confundir com o autoritarismo. 

 Allan Kardec chega a propor que as decisões institucionais sejam colegiadas; que se discuta, que se troquem ideias, e nós estamos vivenciando essa experiência aqui na FEB. Desde que assumimos primeiramente de forma interina em maio de 2012, e atualmente eleito, trabalhamos em conjunto com todos os diretores da FEB, fazendo reuniões com periodicidade muito curta e tratamos todos os assuntos e decidimos em nível de diretoria. Entendo que é uma experiência enriquecedora, facilita a tomada de decisões e evita, às vezes, determinadas tendências pessoais. 

 Os princípios institucionalizados da Unificação inibem o ideário da união espontânea entre os espíritas? 

 A rigor, não. Em 1949 foi definido através do Pacto Áureo um itinerário de ação, dando origem ao CFN – Conselho Federativo Nacional, que é composto pelas entidades federativas estaduais com base na obra de Allan Kardec. Hoje em dia, dentro do contexto da ideia de união e de unificação, podemos perfeitamente estabelecer propostas de união e de parceria entre várias instituições, somando esforços, e portanto não há necessidade, desde que haja propósitos comuns, de ficarmos na dependência de conceitos antigos de controles. Essa é a ideia. 

 O Pacto Áureo ainda pode ser avaliado como o grande marco da Unificação? 

Pode ser considerado, sim, pois ele é genérico. Ele define a obra de Allan Kardec e decide também com base na obra “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho”. Os membros do Pacto chegaram à conclusão que esse livro mostrava qual seria a missão do Espiritismo no Brasil e qual a missão espiritual do Brasil também. É esse o roteiro que ele oferece. O Pacto não entra em detalhamentos, mas fala da União e criou o Conselho Federativo Nacional. Para o CFN funcionar ele foi primeiramente introduzido no Estatuto da FEB. Com a instalação do CFN, a área federativa da FEB é corporificada com a ação do CFN – é importante que saibamos disso. Então o CFN é que traz a orientação geral e define planos para o Movimento Espírita Nacional. Esse Conselho é presidido pelo presidente da FEB, mas é integrado pelas representações dos 27 estados. 

 Quais os grandes desafios vistos para o Movimento Espírita Brasileiro? 

 Nós estamos vivendo vários desafios. A ideia de difundirmos o Espiritismo, na sua pureza, é um grande desafio, pois, como ficou claro, de várias orientações de Allan Kardec, sempre haveria alguma tendência natural de se valorizar pessoas, de se personalizar, e com isso, o que nós assistimos atualmente é que há uma diferença entre a proposta de Kardec e algumas práticas. Por exemplo, na apresentação de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec explica que optou por não colocar o nome dos médiuns junto às mensagens e apenas colocou o nome dos Espíritos, a cidade e a data. Para Kardec era mais importante o conteúdo das mensagens do que o nome do médium. Infelizmente, notamos que hoje em dia muitas pessoas, antes de ler o texto, querem saber primeiro quem é o médium, ou seja, inverte-se a situação. 

 Urge buscar-se mais a coerência doutrinária e maior compatibilidade com a base da Codificação ao invés de ficarmos exaltando ou levantando fileiras em torno de médiuns A, B, C ou D, ou seja, temos que somar, independente de quem seja o médium, desde que a mensagem tenha coerência e esteja fundamentada nas obras de Kardec; esse é o grande desafio. 

 O modelo federativo foi idealizado por mentes superiores, não temos dúvidas. O crescimento do Espiritismo gera distorções e perda na qualidade da mensagem e da prática espírita – é fato – fenômeno sociologicamente explicável. Boa parte dos dirigentes de casas espíritas nem sempre valorizam as ações dos órgãos de Unificação, atribuindo-lhes caráter meramente administrativo, burocrático, com pouco sentido prático. Considerando a sua larga experiência doutrinária, seja como fundador de mocidade espírita, conselheiro e presidente da União Municipal Espírita de Araçatuba, membro fundador de centro espírita, diretor e presidente da USE (União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo) e, por fim, presidente da Federação Espírita Brasileira, quais as ações que pretende desenvolver para aproximar a FEB das casas Espíritas? 

 Reportarei a minha primeira experiência. Quando era muito jovem, assumi a presidência da União Municipal Espírita de Araçatuba – órgão da USE – São Paulo. Naquele momento batalhei contra essas dificuldades, porque o Movimento de Unificação era recente, tinha apenas 20 anos (pós Pacto Áureo). Nessas condições, havia uma certa confusão entre as lideranças espíritas, sobretudo de qual seria a função do órgão unificador. Alguns tinham receio de que seria um órgão controlador ou fiscalizador. Por outro lado, havia muitas pessoas (jovens) no Movimento de Unificação, que pensavam também assim, e ocorriam muitos conflitos. As reuniões eram simplesmente administrativas, então quando assumimos a presidência da UMEA, dentro desse contexto, tornamos as reuniões minimamente administrativas e preponderantemente voltadas para diálogos, para as propostas de ação, juntando esforços, de tal modo que conseguimos descentralizar, fazendo as reuniões em rodízios pelos centros espíritas da cidade. Aproveitamos experiências para que elas se tornassem coletivas. 

 Essa a ideia que, guardadas as devidas dimensões, ainda seguimos, embora atualmente exista uma abrangência gigantesca e um grau de complexidade muito maior, mas mantivemos essa postura para tornar mais dinâmicas as reuniões do CFN. Vejamos: conseguimos suprimir a leitura de relatórios, e hoje as federativas encaminham um relatório por meio de um formulário eletrônico – transferimos para um DVD e distribuímos; desse modo utilizamos o espaço da reunião para discutir planos de ação e, assim, avaliarmos situações que merecem discussão para o desenvolvimento espírita. Entendemos que esse seja o melhor caminho. 

 Considerando que as sandálias de nosso Mestre Jesus sempre estiveram próximas aos necessitados e sofridos, e especialmente junto a esses irmãos em humanidade foi que Ele nos ofereceu provas de amor insuperáveis, e considerando que sobre a FEB repousam muitas esperanças, mas também expectativas, como atuará para se aproximar dos pobres e pouco instruídos na educação formal, dado que representam significativo estrato da sociedade brasileira? 

 Essa é uma preocupação para a qual estamos procurando colocar a solução em prática. Há três anos consubstanciamos um projeto que se titulava “interiorização”, ou seja, estimulávamos a ação de representantes, diretores e colaboradores da FEB juntamente com uma federativa estadual para ir ao interior, não ficarmos só nas capitais. Assim, tive o prazer de conhecer duas cidades do interior do Amazonas, uma delas viajando de barco durante duas horas, justamente para ter o contato com a realidade da base. Um desses centros que visitamos não possuía luz elétrica. A nossa participação à noite foi através do clarão de uma fogueira, porque para eles era uma ocasião especial, pois normalmente usavam a luz de velas. 

 Após essa experiência (interiorização), começamos outros projetos que seriam implementados, que são as ações integradas de acolhimento, consolo, esclarecimento e orientação no centro espírita, porquanto concluímos também que aquela ideia de departamento ou setor, ou seja, muita burocracia, não seria efetiva, até porque a grande maioria dos centros espíritas do Brasil são casas simples e pequenas, não tendo espaço nem condições para tais trâmites. 

 Assim, começamos a trabalhar em torno de um projeto, uma ação, um acolhimento junto a essas pessoas simples, além da ideia de valorizar os centros humildes, periféricos, pequenos, que às vezes não têm condições de manter os custos, mas podem perfeitamente seguir esses passos de acolhimento, consolo e orientação. 

 Nós estamos caminhando nesse sentido e aí me recordo de um companheiro nosso que foi muito feliz na confecção de um cartaz com a imagem da formiguinha. Ele fez a comparação com a formiga e que nos remete a uma mensagem de Fénelon, no cap. I d´O Evangelho segundo o Espiritismo, em que o Espírito examina: “não são esses animálculos (formigas) que conseguem levantar o solo?” É a ideia do trabalho simples, mas persistente e em conjunto, isso que pretendemos disseminar. 

 Suas palavras finais. 

As nossas palavras finais são de sugestão aos espíritas para que aproveitemos o momento que nós estamos vivendo, que é o período, segundo Emmanuel, de aferição de valores, e é um momento bastante delicado e sensível, porque nós temos os compromissos individuais e compromissos coletivos, e, com relação ao Movimento Espírita, é muito importante lembrar o nosso trabalho respaldado no propósito de união, de concórdia e de benevolência recíproca. Então é isso que deve animar a nossa atuação conjunta no Movimento Espírita e no relacionamento com a própria sociedade.

fonte:  http://www.oconsolador.com.br/ano7/312/entrevista.html

 

Tags:

Deixe um comentário