LEI DE AÇÃO E REAÇÃO E LIVRE-ARBÍTRIO, PODE O HOMEM SOBREVIVER ÀS TRAGÉDIAS HUMANAS?

Jun 14th, 2009 | By | Category: Artigos
jorge hessePor que determinadas pessoas escapam da morte em acidentes aéreos, naufrágios, incêndios e outras situações trágicas? Alguns explicam, superestimando os papéis da “sorte” e do destino; outros destacam o lugar da própria reação dos que se encontram em perigo real. Amanda Ripley, em o livro “Impensável – Como e Por que as Pessoas Sobrevivem a Desastres”, diz que “qualquer que seja o desastre, partimos praticamente do mesmo ponto e passamos por três fases distintas.” A primeira etapa é a da negação, na qual tentamos achar formas de provar para nós mesmos que aquilo não está acontecendo. A Segunda fase é a deliberação, fase em que notamos que algo está incrivelmente fora da ordem e passamos a ponderar sobre as opções possíveis. Por fim, com a aceitação do fato de que estamos em perigo e com a contemplação de soluções, chega a hora da fase final, a da ação. “(1)
Normalmente, diante do desfile de horrores decorrentes de uma tragédia, boa parte das vítimas fica, simplesmente, paralisada. Pesquisas recentes mostram que pessoas confiantes (dotadas de uma espécie de fé) tendem a se sair bem em catástrofes. Sua forma de pensar atenua os efeitos devastadores do medo extremo. Muitos que enfrentam crises, e se recuperam bem delas, tendem a contar com três vantagens: acreditam que podem influenciar o que acontece em sua volta; conseguem encontrar sentido no caos da vida moderna; estão convencidos de que podem aprender com as experiências, sejam elas boas ou ruins. Num processo contínuo de disciplina, quanto mais controle tivermos sobre as nossas reações e atitudes, maiores serão as chances de sairmos vivos de uma catástrofe, por exemplo, defendem os pesquisadores.
Alguns se referem ao destino como não sendo uma palavra vã. Crêem, dependendo da posição que ocupamos na Terra, e das funções que aqui desempenhamos em conseqüência do gênero de vida que escolhemos, ser expiação ou missão. Muitas vezes, parece que somos perseguidos por uma espécie de fatalidade, independente da maneira por que procedamos. São, no entanto, provas que nos cabe sofrer e que escolhemos antes de reencarnarmos. Todavia, lançamos à conta do fatalismo o que, na verdade, é, apenas, consequência de nossas próprias faltas, motivo pelo qual é urgente higienizarmos a consciência em meio aos deslizes morais que nos afligem, para alcançarmos uma efetiva harmonia íntima, que nos capacite enfrentar quaisquer desafios, inclusive tragédias.
Nunca há fatalidade nos atos da vida moral, mas, no que concerne à morte física, à desencarnação, achamo-nos submetidos, em absoluto, à inexorável lei da fatalidade, por não podermos escapar à sentença que nos marca o termo da existência, nem ao gênero de morte que haverá de cortar o fio da existência física. Ainda, sobre a fatalidade, lembremos que ela existe, unicamente, pelas provas requeridas por nós ou por proposta dos guias espirituais, antes da reencarnação, mas sempre de forma lucrativa para o espírito. Uma vez aceitas ou compulsoriamente estabelecidas, cria-se um calendário a ser cumprido, uma espécie de roteiro fatal para nós, que é a conseqüência mesma da posição em que nos achamos situados. Considerando, aqui, as provações a que somos submetidos, é de fundamental importância sabermos que elas podem mudar de curso, dependendo de como usamos o livre-arbítrio, se para o bem ou se para o mal, pois sempre somos senhores da nossa vontade, de ceder ou de resistir.
Uma coisa é importante discutir no debate, ou seja, a proteção espiritual. Ao nos depararmos fraquejando, um bom Espírito pode nos socorrer, mas, obviamente, sem influir sobre nós de maneira absoluta, ao ponto de dominar nossa vontade. Todos nós temos os nossos amigos protetores no além, lídimos guardiões, segundo as nossas condições evolutivas. Entretanto, é necessário lembrar que há uma hierarquia em todos os planos, tendo em vista que, quando o problema escapa à competência do espírito protetor, este solicita do seu superior a necessária intervenção. Todavia, os pormenores dos fatos que nos ocorrem, esses ficam subordinados às circunstâncias que criamos pelas experiências, sendo que, também, nessas circunstâncias, podemos ser influenciados pelos pensamentos que sugiram os bons Espíritos.
Não podemos acreditar que tudo o que nos sucede “esteja escrito” nas linhas do destino, como costumam dizer. Um acontecimento qualquer pode ser a conseqüência de um ato que praticamos por livre vontade, de tal sorte que, se não o houvéssemos praticado, o efeito poderia não se materializar. O fato de sermos surpreendidos, algumas vezes, em situação de perigo, constitui um mecanismo de alerta, endereçado pelos guias espirituais, a fim de nos desviarmos do mal e nos tornarmos melhores. Se escaparmos a esse perigo, quando ainda estivermos sob a impressão do risco que corremos, é sinal de que estamos sensíveis à influência dos Espíritos bons. Porém, se persistirmos rebeldes em não aceitarmos os convites superiores do bem, o obsessor, ou seja, o mau Espírito (digo mau, subentendendo o mal que ainda existe nele), vincula-se a nós, interferindo em nossas mentes, sugerindo-nos pensamentos depressivos, num processo perverso de vingança. Em verdade, através dos perigos que corremos, Deus nos adverte quanto à nossa fraqueza e a fragilidade da nossa existência. Se examinarmos a causa e a natureza do perigo, verificaremos que, quase sempre, suas conseqüências teriam sido a correção (punição?) de uma falta cometida ou da negligência no cumprimento de um dever. Deus, por essa forma, exorta-nos a um mergulho na própria consciência a fim de retificar a caminhada.
Na vida, tudo tem uma razão de ser, nada ocorre por acaso conosco, ainda mesmo quando as situações se nos afigurem trágicas. Antes de reencarnarmos, sob o peso de débitos de antanho, somos informados, no além-túmulo, dos riscos a que estamos sujeitos, das formas pelas quais podemos quitar a dívida, porém, o fato, por si só, não é determinístico, até, porque, dependem de circunstâncias várias em nossas vidas a sua consumação, uma vez que a Lei de Causa e Efeito admite flexibilidade, quando o amor rege a vida, porque “o amor cobre uma multidão de pecados.” (2)
Como disse antes, “fatal, no verdadeiro sentido da palavra, só é o instante da morte” (3), pois, como disseram os Espíritos a Kardec: “quando é chegado o momento de retorno para o Plano Espiritual, nada “te livrará” e frequentemente o Espírito também sabe o gênero de morte por que partirá da terra”, “pois isso lhe foi revelado quando fez a escolha desta ou daquela existência”.(4) Mais, ainda: “Graças à Lei de Ação e Reação e ao Livre-Arbítrio, o homem pode evitar acontecimentos que deveriam realizar-se, como também permitir outros que não estavam previstos”.(5) A fatalidade só existe como algo temporário, frente à nossa condição de imortais, com a finalidade de “retomada de rumo”. Fatalidade e destino inflexível não se coadunam com os preceitos kardecianos. Quem crê ser “vítima da fatalidade”, culpa somente o mundo exterior pelos seus sofrimentos e se recusa a admitir a conexão que existe entre ação e reação.


Jorge Hessen
E-Mail: jorgehessen@gmail.com
Site: http://jorgehessen.net
FONTES:
1 Ripley, Amanda. “Impensável – Como e Por que as Pessoas Sobrevivem a Desastres, Rio de Janeiro: Editora Globo, 2008
2 Cf. Primeira Epístola de Pedro Cap. 4:8
3 Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed FEB, 1979, pergs. 851 a 867
4 idem
5 Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed FEB, 1979,
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