O AMOR RESUME INTEIRAMENTE A DOUTRINA DE JESUS

Mar 6th, 2014 | By | Category: Artigos

amor e jesusPesquisadores situam o “Amor” como um subproduto oriundo da reação química regida pelo cérebro. No processamento biológico refere-se a feniletilamina (1) produzida pelo organismo, na medida em que surge uma atração sexual absorvente. Para Hellen Fischer, estudiosa do assunto, o romantismo tende a desaparecer em pouco tempo. Hellen crê que existe outra substância relacionada ao “Amor”: a Oxitocina, que “sensibiliza os nervos nas contrações musculares, porém o efeito dessas substâncias é pouco duradouro, resultando no esfriamento afetivo e nas separações entre os casais, razão do grande número de divórcios”. (2)
Nessa direção perambula Barbara Fredrickson, diretora do Laboratório de Emoções Positivas e Psicofisiologia da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill (EUA), que sugere novo conceito sobre o Amor, baseado no arranjo biológico. Para ela a ideia do amor eterno é um mito e uma impossibilidade fisiológica, pois o “amor” é fugaz. Trata-se tão-somente de “micromomentos de ressonância de positividade”. Barbara destaca três protagonistas-chave no microcenário do amor. O primeiro é o cérebro, ou, mais precisamente, os neurônios-espelhos. O segundo é a oxitocina, produzida no hipotálamo, para ela um hormônio vinculado ao “amor” e ao “afeto”. O terceiro é o nervo vago, que liga o cérebro ao resto do corpo, e em especial ao coração – isso torna a pessoa mais amorosa e aumenta suas conexões positivas. (3)
O dicionarista Aurélio Buarque define o Amor como “um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa. Pode ser um sentimento terno ou ardente de uma pessoa por outra, e que engloba também atração física, ou ainda inclinação ou apego profundo a algum valor ou a alguma coisa que proporcione prazer, entusiasmo, paixão”. (4) Sobre que tipo de “amor” tais especialistas estão fazendo ilações?
Será plausível comparar o Amor com o mosaico das sensações fisiológicas do ser humano? Metaforicamente podemos até citar o amor conjugal, amor materno, amor filial ou fraterno, amor à pátria, da raça, da humanidade, como refrações, raios refratados do amor divino, que abrange, penetra todos os seres, e difunde-se neles, faz rebentar e desabrochar mil formas variadas, mil esplêndidas florescências de amor.
Não se pode, porém, definir Amor como se fosse a abrasadora paixão que provoca os desejos carnais. Esta não passa de uma imagem de um grosseiro simulacro do Amor. Nos dias de hoje, fala-se e escreve-se muito sobre sexo, sensualismo, erotismo; raramente sobre Amor. Certamente, porque esse sentimento (Amor) não se deixa decifrar academicamente, repelindo toda tentativa de definição científica.
O Amor verdadeiro vai muito além do cientificismo, do romantismo e do erotismo. Embora absorvidos pela condição animalizante, psicólogos e filósofos até hoje se interessam por estudar, quase que exclusivamente, essa forma lírica e dramática da paixão entre duas criaturas. A Psicanálise, nos primórdios da teoria freudiana, colocou o problema do “Amor” na dimensão do patológico. Em verdade, Freud teve de entrar no estudo e na pesquisa do “Amor” pelos porões da psicopatologia. O aspecto patológico é o mais dramático do “Amor” e o que mais toca o interesse humano.
Ao oposto do Amor, a paixão é exclusivista, egoísta, dominadora; é predominantemente desejo. Um sentimento que impõe o sequestro da consciência do outro, desenvolvendo uma forma possessiva, em que brota o ciúme e a vontade de domínio integral da pessoa “amada”. O Amor é mais forte do que o desejo, mais poderoso que o ódio.
O vazio conceitual deve-se à dificuldade de manifestação do Amor na forma de solidariedade e fraternidade no mundo contemporâneo. A ampliação dos centros urbanos cunhou a “Era da alienação”, a síndrome da multidão solitária, das adesões afetivas frágeis. As pessoas estão lado a lado, mas suas relações são de contiguidade e brutal desconfiança. A presente geração, amputada de maiores anseios espirituais, intrinsecamente hedonista, sensual e consumista, conferindo a si mesma as mais elevadas aquisições de caráter prático na província da razão, produziu os mais extensos desequilíbrios nos cursos evolutivos do planeta, com o seu imperdoável alheamento do Amor.
Allan Kardec, comentando a questão 938 de O Livro dos Espíritos, certifica: “a natureza deu ao homem a necessidade de amar e de ser amado. Um dos maiores gozos que lhe são concedidos na Terra é o de encontrar corações que com o seu simpatizem. Dá-lhe ela, assim, as primícias da felicidade que o aguarda no mundo dos Espíritos perfeitos, onde tudo é amor e benignidade. Desse gozo está excluído o egoísta.” (5) O apóstolo dos gentios, escrevendo aos filipenses, ensinou que “o Amor deve crescer, cada vez mais, no conhecimento e no discernimento, a fim de que o aprendiz possa aprovar as coisas que são excelentes”. (6) Se atendermos ao conselho apostólico cresceremos em valores espirituais para a eternidade, mas se rumarmos por atalhos escorregadiços, “o nosso Amor será simplesmente querer e tão-somente com o “querer” é possível desfigurar, impensadamente, os mais belos quadros da vida”. (7)

Leon Dénis decifrou: “o Amor, profundo como o mar, infinito como o céu, abraça todas as criaturas. Deus é o seu foco. Assim como o Sol se projeta, sem exclusões, sobre todas as coisas e reaquece a natureza inteira, assim também o Amor divino vivifica todas as almas; seus raios, penetrando através das trevas do nosso egoísmo, vão iluminar com trêmulos clarões os recônditos de cada coração humano”. (8)
O Convertido de Damasco anotou junto aos coríntios que “o Amor é paciente, o Amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O Amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” (9)
O Amor, enfim, “resume a doutrina de Jesus toda inteira, visto que esse é o sentimento por excelência, e os sentimentos são os instintos elevados à altura do progresso feito. O ponto delicado do sentimento é o Amor, não o Amor no sentido vulgar do termo, mas esse sol interior que condensa e reúne em seu ardente foco todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas”. (10)

Jorge Hessen


Notas e referências bibliográficas:

(1) Líquido oleoso, incolor, redutor enérgico, uso como reagente [fórm.: C6H8N2]

(2) Fischer , Helen. The Anatomy of Love, New York: Norton,1992
(3) Disponível em http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/comportamento/o-amor-nao-e-eterno acesso em 01/03/2014
(4) Ferreira Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da língua portuguesa, 5ª. Edição, Editora Positivo, 2010
(5) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB ed. 2002, questão 983-a
(6) Filipenses 1:9-11
(7) Xavier, Francisco Cândido. Fonte Viva, Cap 91, Problemas do amor, RJ: Ed FEB, 1999
(8) Denis, Léon. O Problema do Ser do Destino e da Dor, RJ: Ed FEB, 2000
(9) 1 Coríntios 13:4-7
(10 ) Allan Kardec. Da obra: O Evangelho Segundo o Espiritismo. Lázaro. (Paris, 1862.) 112a edição. Livro eletrônico gratuito em http://www.febrasil.org. Federação Espírita Brasileira, 1996.
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One Comment to “O AMOR RESUME INTEIRAMENTE A DOUTRINA DE JESUS”

  1. GERALDO MAGELA MIRANDA diz:

    Creio, Jorge, que há academicismo em tudo, pois é humano a busca da razão, e a ferramenta de que o homem lança mão é o estudo científico.
    O pensamento humano é moldado pelo cientificismo. Esta é a chancela para a aceitação de modelos e definições criadas pelos pesquisadores, e imagino que tenha sido o que balizou por exemplo Freud na investigação da vertente patológica para explicar (ou definir) o comportamento e as maluquices oriundas dos sentimentos.

    Mas pelo prisma espiritual, o amor é algo mais essencial e puro. Na espiritualidade, eu creio, isso fica mais visível e compreensível, pela constituição existente nesse plano. Aqui, onde o ambiente é muito denso, torna-se difícil essa visão essencial, porque a lente que usamos filtra essa realidade subliminar. O que é o egoísmo senão a falta dessa visão fraternal do todo, aparentemente tão simples quando estamos imbuídos da ótica espírita? A cada momento deparamos com conceitos e posturas de pessoas ao nosso redor que nos deixa desanimados e por vezes perplexos diante da simplicidade que é o amor fraternal, puro e sem pretensões de ter, mas apenas de ser.

    Bem, escrevo essas palavras com humildade, sem a pretensão da razão, para exteriorizar o conceito que carrego aqui dentro, também moldado pelas vivências e experiências desses anos por aqui, mas também, acredito, por alguma herança espiritual que tenha trazido do nosso passado temporariamente esquecido.

    Grande abraço do irmão.
    GERALDO MAGELA MIRANDA

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