O Espírita no velório, cerimônia do “até já”,“até logo”, “nos veremos em breve”

Jul 11th, 2017 | By | Category: Artigos

VELAÇÃO0000001Certa vez, um confrade segredou-me que não permitirá velórios no sepultamento de seus familiares mais próximos, porque é totalmente contra tal tradição mortuária. Não vê lógica doutrinária nesse tipo de cerimonial. Crê que após constatada a desencarnação, em no máximo algumas poucas horas, deveriam ser feitos os preparativos para o sepultamento, sem rituais religiosos.

Busquei esclarecê-lo de que velório ou “velação” não é necessariamente um ritual religioso”, portanto não está associado a religiões, até porque seu início dá-se quando a pessoa está doente e precisa de ser velada, cuidada, vigiada. Pois é! A origem da palavra velar que dá origem a velório vem do latim “vigilare”, que dá significado de vigilância. E mais: o termo velar não se refere às “velas”, flores, missas, cultos, mas (repito) ao verbo “velar” (de cuidar, zelar).

O dicionarista define o verbo velar como “ficar acordado ao lado de (alguém)”, “ficar acordado durante (um tempo)” e ainda “manter-se de guarda, vigia” dentre outras definições. O termo tem uma conotação exata se de fato as pessoas que vão “velar” o falecido, realmente o fazem com atitude de zelo, vigília, respeito e de despedida do corpo que serviu ao espírito durante a experiência que se encerra.

É evidente que velar o defunto é atitude respeitável. No velório devemos orar respeitosamente ao amigo que se despoja do corpo físico, dirigindo-lhe por exemplo (como sugestão) a prece indicada por Allan Kardec contida no cap. XXVIII, item 59 do Evangelho Segundo o Espiritismo, intitulado “Pelos recém-falecidos”. [1] Protocolarmente ou não, no velório nos solidarizamos com os parentes e amigos do “morto”, auxiliando no que for preciso, seja ofertando um abraço fraterno ou apenas a presença serena, numa empatia repleta de misericórdia, na base da paciência e do estímulo, da consolação e do amor, como nos instrui Emmanuel. [2]

Em contrapartida, em muitos casos essa celebração se desviou, e muito, do sentido ético, pois acima das emoções justificáveis por parte dos parentes e amigos, ostenta-se um funeral por despesas excessivas com coroas de flores, santinhos, escapulários, velas que podem ser usados em doações a instituições assistenciais, conforme instrui André Luiz. Ouçamo-lo: Os espíritas devem dispensar, nos funerais, as honrarias materiais exageradas e as encenações, pois considerando que “nem todo Espírito se desliga prontamente do corpo”, importa, porém, que lhe enviemos cargas mentais favoráveis de bênçãos e de paz, através da oração sincera, principalmente nos últimos momentos que antecedem ao enterramento ou à cremação. Oferenda de coroas e flores deve transformar-se “em donativos às instituições assistenciais, sem espírito sectário”. [3]

Social, moral e espiritualmente, quando comparecemos a um velório exercemos abençoado dever de solidariedade, proporcionando consolação à família. Infelizmente, tendemos a fazê-lo por desencargo de consciência formal, com a presença física, ignorando o decoro espiritual, a exprimir-se no respeito pelo recinto e no esforço de auxiliar o desencarnado com pensamentos elevados.

Ora, o desencarnado precisa de vibrações de harmonia, que só se formam através da prece sincera e de ondas mentais positivas. Em o livro Conduta Espírita, o Espírito André Luiz mais uma vez adverte-nos para “procedermos corretamente nos velórios, calando anedotário e galhofa em torno da pessoa desencarnada, tanto quanto cochichos impróprios ao pé do corpo inerte. O recém-desencarnado pede, sem palavras, a caridade da prece ou do silêncio que o ajudem a refazer-se. “É importante expulsar de nós quaisquer conversações ociosas, tratos comerciais ou comentários impróprios nos enterros a que comparecermos”. Até porque a “solenidade mortuária é ato de respeito e dignidade humana”. [4]

Deploravelmente, poucos se dão ao cuidado de conversar baixinho, principalmente no momento da remoção do cadáver do recinto para a “catacumba”, quando se amontoam maior número de pessoas. Temos motivos de sobra para a moderação, cultivemos o silêncio, conversando, se necessário, em voz baixa, de forma edificante.

Podemos fazer referências ao finado com discrição, evitando pressioná-lo com lembranças e emoções passíveis de perturbá-lo, principalmente se forem trágicas as circunstâncias do seu falecimento. Oremos em seu benefício, porque “morre-se” como “se vive”. Se não conseguirmos manter semelhante comportamento, melhor será que nem compareçamos ou nos retiremos do ambiente, evitando alargar o estrepitoso coro de vozes e vibrações desrespeitosas que afligem o recém-desencarnado, até porque o “morrer” nem sempre é o “desencarnar”.

Jorge Hessen

jorgehessen@gmail.com

Referências bibliográficas:

[1]        Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXVIII, item 59, RJ: Ed. FEB, 1939

[2]        Xavier, Francisco Cândido. Servidores no Além, SP: Editora – IDE, 1989

[3]        Vieira, Waldo. Conduta Espírita, RJ: Ed FEB, 1999

[4]        Idem

 

 

 

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4 Comments to “O Espírita no velório, cerimônia do “até já”,“até logo”, “nos veremos em breve””

  1. GERALDO MAGELA MIRANDA diz:

    Para
    ‘Jorge Hessen’

    Hoje em 11:46

    Não bastasse a ética já ser defectiva entre os vivos, também para com os mortos.
    Talvez a maioria, acredito, não tenha essa noção de respeito à condição daquele que acaba de desencarnar, sem a consciência da pressão que exerce com seus lamentos e comentários.
    Também já não vejo sentido nos funerais materialistas, com enfeites que não terão utilidade nenhuma, a não ser para aqueles que ficam e que não abrem mão do ritual.
    Faço o possível para comparecer aos velórios, em respeito e consideração tanto a quem desencarna como aos seus próximos. De preferência em silêncio e tentando propiciar algum conforto a quem acaba de deixar esse palco.
    Geraldo Magela Miranda

  2. Abek Sanchez Vieira diz:

    Compartilhamos a vida e não a morte.
    As vezes podemos morrer até em vida ainda,
    Quando não respeitamos o nosso corpo carnal.
    Quem está bem vivo, nunca vai morrer.

  3. Ione diz:

    Como sempre, bastante oportuno o texto, alertando-nos. Muito grata amigo.
    Ione

  4. Irmãos W diz:

    Olá
    Amigos…

    Um grande tema… Pois todos iremos passar… Esta fase… Sendo conforme pesquisadores espíritas… Como Ernesto Bozzano… E que foi estudado por Kardec… A desencarnação… E diferente para cada pessoa… E vai depender o maior e o menor apelo material… Seus sentimentos… Sua idade… O processo na qual a pessoa… Mais o mais importante… E saber… Que somos imortais… A vida continua…E claro confiança em Deus!!!
    Vejam a pesquisa na qual citei…
    Link:
    http://www.autoresespiritasclassicos.com/Autores%20Espiritas%20Classicos%20%20Diversos/Ernesto%20Bozzano/40/Ernesto%20Bozzano%20-%20Um%20defunto%20que%20se%20recorda%20de%20tudo.htm

    Fiquem com Deus

    A luta segue

    Wanderlei

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