OS PAIS SÃO RESPONSÁVEIS PELO DESENVOLVIMENTO DOS VALORES MORAIS DOS FILHOS (Jorge Hessen)

Feb 14th, 2014 | By | Category: Artigos

educaO livro “To Train Up a Child” (Treinando uma Criança), de autoria do pastor Michael Pearl e sua esposa Debbie , é uma espécie “manual de punição” que defende “sovas” para correção dos filhos malcomportados. Os conteúdos versam sobre “surras” com a utilização de cintos, varas e outros apetrechos correlatos, descrevendo em detalhes os castigos considerados ideais em cada caso.(1) O casal Pearl e Debbie propõe o método da “coça” a fim de condicionar a mente da criança antes que surja uma crise; é uma preparação para obediência futura, instantânea e sem questionamentos”. (2) Todavia, em face da morte de três crianças, filhas de pais supostamente influenciados pelo livro, tem havido fortes reações de represália contra os autores através de campanhas populares, visando banir tal livro das livrarias americanas.
Recentemente uma brasileira foi condenada a nove meses de prisão, na Espanha, por expulsar de casa, por um dia, o seu filho de 15 anos. A sentença recebeu destaque nos principais jornais e TVs espanholas. Nossa conterrânea alegou que agiu assim, porque pretendia dar uma lição mais “forte” no filho, que é problemático, desobediente e muito agressivo. Sua intenção era ensinar-lhe regras sociais e respeito pela mãe. Para a juíza, do Tribunal Penal de Málaga, a atitude da brasileira representa uma negligência e um delito de abandono temporário, motivo pelo qual a condenou, explicando que, embora o menor se encontre em plena adolescência, com os conflitos comuns da idade, isso não é razão para colocá-lo fora de casa, deixando-o à intempérie na rua, por uma noite, porque essa decisão cria uma situação de risco para o menor.
Toda e qualquer violência doméstica é trágica sob qualquer análise. As relações entre filhos e pais deveriam ser, acima de tudo, de ordem ética. Mas, observa-se nessa relação uma deterioração emocional profunda e uma complexa malha de desestabilidades morais, que merece comentários. Os pais devem estar sempre atentos e, incansavelmente, buscando um diálogo franco com os filhos, sobretudo, amando-os, independentemente, de como se situam na escala evolutiva.
Sabe-se que os jovens hostis e violentos são pouco amados pelos pais, sentem-se deslocados no grupo familiar ou se consideram pouco atraentes, etc. Por estas e muitas outras razões, os pais devem transmitir segurança aos filhos através do afeto e do carinho constantes. Afinal, todo ser humano necessita ser amado, gostado, mesmo tendo consciência de seus defeitos, dificuldades e de suas reais diferenças
Os pais são responsáveis pelo desenvolvimento dos valores dos filhos e não devem apostar na escola para exercer essa tarefa. Um pai legítimo é aquele que cultiva em casa a cidadania familiar. Ou seja, ninguém em casa pode fazer aquilo que não se pode fazer na sociedade. É preciso impor a obrigação de que o filho faça isso, assim, cria-se a noção de que ele tem que participar da vida comunitária. Não há dúvida, que ante as balizas do bom senso e moderação os pais precisam estabelecer limites. Porém essa exigência é muito mais acompanhar os limites, daquilo que o filho é capaz de fazer.
A fase infantil, em sua primeira etapa, é a mais importante para a educação, e não podemos relaxar na orientação dos filhos, nas grandes revelações da vida. Sob nenhuma hipótese, essa primeira etapa reencarnatória deve ser enfrentada com insensibilidade. Até aproximadamente os sete anos de idade é o período infantil mais acessível às impressões que recebe dos pais, razão pela qual não podemos esquecer nosso dever de orientar os filhos quanto aos conteúdos morais. “O pretexto de que a criança deve desenvolver-se com a máxima noção de liberdade pode dar ensejo a graves perigos (…)pois o menino livre é a semente do celerado.” (3)
Se não observarmos essas regras, permitimos acender para o faltoso de ontem a mesma chama dos excessos de todos os matizes, que acarretam o extermínio e o delito. “Os pais espiritistas devem compreender essa característica de suas obrigações sagradas, entendendo que o lar não se fez para a contemplação egoística da espécie, mas sim para santuário onde, por vezes, se exige a renúncia e o sacrifício de uma existência inteira.”.(4)
Principalmente a mãe deve ser o padrão de todos as renúncias pela serenidade familiar. Deve compreender, que seus filhos, primeiramente, são filhos de Deus. “ Desde os primeiros anos, deve ensinar a criança a fugir do abismo da liberdade, controlando-lhe as atitudes e concentrando-lhe as posições mentais, pois essa é a ocasião mais propícia à edificação das bases de uma vida. Ensinará a tolerância mais pura, mas não desdenhará a energia quando seja necessária no processo da educação, reconhecida a heterogeneidade das tendências e a diversidade dos temperamentos.”.(5)
A mãe “não deve dar razão a qualquer queixa dos filhos, sem exame desapaixonado e meticuloso das questões, levantando-lhes os sentimentos para Deus, sem permitir que estacionem na futilidade ou nos prejuízos morais das situações transitórias do mundo. Na hipótese de fracassarem todas as suas dedicações e renúncias, compete às mães incompreendidas entregar o fruto de seus labores a Deus, prescindindo de qualquer julgamento do mundo, pois que o Pai de Misericórdia saberá apreciar os seus sacrifícios e abençoará as suas penas, no instituto sagrado da vida familiar.”.(6)
Os filhos difíceis são reflexos de nossas próprias ações, no passado, cuja Benevolência de Deus, hoje, outorga a possibilidade de se unir a nós pelos laços da consanguinidade, dando-nos a estupenda chance de resgate, reparação e os serviços árduos da educação. “Dessa forma, diante dos filhos insurgentes e indisciplináveis, impenetráveis a todos os processos educativos, “os pais depois de movimentar todos os processos de amor e de energia no trabalho de orientação deles, é justo que esperem a manifestação da Providência Divina para o esclarecimento dos filhos incorrigíveis, compreendendo que essa manifestação deve chegar através de dores e de provas acerbas, de modo a semear-lhes, com êxito, o campo da compreensão e do sentimento.”.(7)
Esgotados todos os recursos a bem dos filhos e depois da prática sincera de todos os processos amorosos e enérgicos pela sua formação espiritual, sem êxito algum, os pais “devem entregá-los a Deus, de modo que sejam naturalmente trabalhados pelos processos tristes e violentos da educação do mundo. A dor tem possibilidades desconhecidas para penetrar os espíritos, onde a linfa do amor não conseguiu brotar, não obstante o serviço inestimável do afeto paternal, humano. Eis a razão pela qual, em certas circunstâncias da vida, faz-se mister que os pais estejam revestidos de suprema resignação, reconhecendo no sofrimento que persegue os filhos a manifestação de uma bondade superior, cujo buril oculto, constituído por sofrimentos, remodela e aperfeiçoa com vistas ao futuro espiritual.”.(8)
Como se observa o Espiritismo adentra com muita profundidade, ao encarar a educação do ponto de vista moral. Até porque o período infantil é propício para deixar o espírito mais acessível aos bons conselhos e exemplos dos pais e educadores, pois o espírito é mais flexível em face da debilidade física, daí a tarefa de reformar o caráter e corrigir suas más tendências. Quando os Espíritos Superiores falam em reformar o caráter está implícito o reforço às boas tendências conquistadas pelo espírito reencarnante em vidas passadas.
Na questão 629 de O Livro dos Espíritos, ao definirem o que é moral, os espíritos indicam duas regras básicas de procedimento para o ser humano. Primeiro fazer tudo tendo em vista o bem, segundo fazer tudo tendo em vista o bem de todos. Isso porque o bem não pode ser unilateral, ou seja, a ação não pode gerar benefícios somente para um indivíduo, e sim para todos. Só é bom aquilo que faz bem para todos. É por isso que vários discursos clamam pelas ações solidárias humanas, tão necessárias e que devem ser desenvolvidas desde a infância, para que a criança faça disso um hábito. (9)
Ainda nessa temática da educação do ponto de vista moral, Allan Kardec adverte em comentário à questão 685-A de O Livro dos Espíritos: “Há um elemento que não se ponderou bastante, e sem o qual a ciência econômica não passa de teoria: a educação. Não a educação intelectual, mas a moral, e nem ainda a educação moral pelos livros, mas a que consiste na arte de formar os caracteres, aquela que cria os hábitos adquiridos.”(10)
Não propomos soluções particulares, reprimindo ou regulamentando cada atitude, nem especificamos fórmulas mágicas de bom comportamento aos filhos. Elegemos por acatar, em toda sua amplitude, os dispositivos da Lei de Deus, que asseguram a todos o direito de escolha (o livre-arbítrio) e a responsabilidade consequente dos atos de cada um.

Jorge Hessen

Referências bibliográficas:

(1) Para crianças com menos de um ano, o livro sugere o uso de uma régua de 30cm ou um galho pequeno de chorão. Para crianças maiores, galhos maiores ou cintos.
(2) Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/12/131211_livro_surras_criancas_dg.shtml?s acesso em 12/02/2014
(3) XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995, perg. 113
(4) Idem , idem
(5) Idem, perg.189
(6) Idem, idem
(7) Idem, perg.190
(8) Idem, perg.191
(9) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo: questão número 629, Ed. Feesp, 1972.
(10) Idem questão número 685-A.

 

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3 Comments to “OS PAIS SÃO RESPONSÁVEIS PELO DESENVOLVIMENTO DOS VALORES MORAIS DOS FILHOS (Jorge Hessen)”

  1. Domingos Pereira says:

    “Tenho” seis(6) filhos, poderia perfeitamente dizer, quatro consanguíneos e dois adotivos; mas me abstenho, pois todos são iguaizinhos para mim, os amo do mesmo modo,e “não estou dando uma de bonzinho” por que sou espirita, ou um exemplo de probidade e cristão exemplar NÃO,(mais me esforço pra ser); os eduquei, com exemplos bons, conselhos e palmadas ‘EDUCATIVAS”, quando foi preciso, vejo hoje com muita tristeza que praticamente TUDO que se diz para uma criança é ‘IMORAL OU ENGORDA”, mais é permitido praticamente TUDO e mais um pouco …, e as leis asseguram toda esta anarquia. Com exerção, dentro das forças armadas, será por que ainda não fizeram manifestações e quebra quebra para que lá vire um PIQUI NEQUE pra marmanjos mal educados.
    “ESPECIALISTAS” em crianças, que ainda não tiveram um filho sequer, e possivelmente nem bons filhos são,(teóricos), são chamados a dar pitacos, e a compor conselhos e outras agremiações correlatas que se outorgam especialistas no assunto. Certa vez ouvi de um padre, uma resposta inesquecível, quando uma senhora lhe pediu conselhos a respeito de casamento, ele respondeu …, sinto não poder ajudar, pois não sou casado, casamento é uma experiencia que não vive. Não sou a favor de castigos absurdos, como as surras que meu pai dava em todos nós, mais confesso-me agradecido por cada cintada recebida, sem elas certamente eu e meus irmãos não seriamos os cidadãos que somos hoje, mais os pais atuais esquecem e esqueceram de dizer NÃO, e NÃO, para as CRIONÇAS desta geração, (tem exerções).
    Vejo atualmente com muita tristeza a liberdade sem limites dada aos filhos, principalmente por pais despreparados,(que” ficaram”…, dizendo depois que fizeram amor), que com a alegação de irem trabalhar, jogam as crianças em creches ou encima dos avós, coitados já cansados e idosos e muita das vezes doentes para “cuidarem” de suas responsabilidades …
    Filhos é a maior responsabilidade que recebemos aqui na terra, assim eu afirmo.
    Se você não pode, não tenha. Por que se tiver assuma.

  2. eliane says:

    orge, já te falei, que gostaria muito de ouvir e estar numa palestra sua…sempre ricas..
    Bem, eu penso, que os pais são vão transferir o que já possuem, em conhecimentos e exemplo…”faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”…observo na evangelização infantil e jovem, a pouca aceitação por muitos trabalhadores espiritas que ainda não trazem os seus filhos para conhecer e participar da doutrina…vejo muitos dirigentes, presidentes, etc…que dizem não conseguir trazer seus familiares e aqui especificamente as crianças…por não disponibilizar de mais um dia na semana para vir na casa…é uma realidade…mas no final de semana? Porém também ja vi que uma menina de 10 anos, vindo na evangelização, onde seus pais a deixavam literalmente na porta da casa depois vinham buscar…hoje eles, os pais entram, assistem a a palestra, e já vão começar a estudar…então os filhos podem mesmo sem se dar conta… despertar o interesse e educar espiritualmente e moralmente seus pais..acredito mais nessa possibilidade…embora a evangelização e auto – evangelização seja permanente, isso fica delegado aos encontros de sábado e domingo, com direção somente a poucos pais interessados na melhoria intima de seus amores…abraços,
    Eliane Macedo

  3. Irmãos W says:

    Olá

    Caro guerreiro!!!

    A criança é como uma argila!!! Maleável!!!

    A criança e uma alma antiga que reencarnou!!! Em um novo corpo… Traz em seu bojo qualidades negativas e positivas… Basta os pais estudarem isto… E através dos nossos bons exemplos!!! Possamos educar a estes pequeninos que Deus nos colocou em nossa vida!!!

    Um grande abraço

    Jorge Hessen

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