ROUSTAING – O SESQUICENTENÁRIO TÃO AGUARDADO NA FEB

Abr 14th, 2016 | By | Category: Artigos

 

Os quatro evangelhos. de J.B.RoustaingUm confrade muito querido sugeriu-me escrever sobre a revista Reformador, estabelecendo um paralelo entre a elevação dos conteúdos doutrinários veiculados no passado remoto , e a atual insipidez doutrinária e excesso de fotografias de dirigentes publicadas nas suas páginas.

Outro companheiro informou-me que a FEB – Federação Espírita Brasileira está preparando o lançamento (previsto para o mês de junho de 2016) da nova edição dos “Quatro Evangelhos”, almejando a submissão comemorativa aos 150 anos de lançamento do livro de J.B. Roustaing. Em face disso, telefonei  para o departamento editorial da FEB e fui  informado sobre o tal lançamento, em razão disso, deliberei antecipar um manifesto de alerta em face da augurada reedição das obras que representam a ruptura de união ente os espíritas no Brasil.

Percorrendo determinadas narrativas sobre a história da revista Reformador inteiramo-nos de que ela foi fundada em 21/1/1883 por Augusto Elias da Silva, um fotógrafo português, num corajoso empreendimento de difusão espírita no Brasil do século XIX. Isto porque, fundar e conservar um órgão de propaganda espírita, na Corte do Brasil era, naquele período, para esmorecer o ânimo dos espíritas mais resolutos. Uma vez que dos púlpitos brasileiros, principalmente dos da Capital, choviam anátemas sobre os espíritas, os novos hereges que cumpria abater.

Escreveu o fotógrafo lusitano o seguinte: “Abre caminho, saudando os homens do presente que também o foram do passado e ainda hão de ser os do futuro, mais um batalhador da paz: o “Reformador”. Com essas palavras inaugurais apresentava-se, no Brasil o novo órgão da divulgação espírita. ”[1]

O artigo de fundo do primeiro número traçava as diretrizes de paz e progresso pelos quais se nortearia o informativo, definindo ainda os objetivos que tinha em vista alcançar. Apresentou-se, portanto, o “Reformador” como mais um semeador da paz, apetrechado da tolerância e da fraternidade, desfraldando a bandeira da presumível “união” entre os espíritas. Ótimo!

Até 1888 a redação do periódico funcionou (no ateliê) montado na residência do Elias da Silva. Era um jornal quinzenal composto de quatro páginas e estima-se que sua tiragem inicial era de aproximadamente 300 exemplares, contando com cerca de uma centena de assinantes. A partir de 1902 passou ao formato de revista, inicialmente com 20 páginas e periodicidade bimestral. Na década de 1930 passou a ser mensal, e o número de páginas aumentou gradativamente. Em 1939, a FEB adquiriu e instalou as máquinas impressoras próprias, nas dependências dos fundos do prédio da Avenida Passos. Foi uma decisiva empreitada e graças a essa providência, as edições e reedições de livros espíritas e da revista começaram sua expansão.

Em seguida, com a instalação do complexo gráfico, em 1948, em amplo edifício (atualmente abandonado, arrasado e falido) especialmente construído em São Cristóvão/Rio de Janeiro, a FEB acresceu a propaganda doutrinária. Paradoxalmente, na década de 1970 a FEB “modernizou” as impressões de Reformador com as capas coloridas, substituindo inclusive o logotipo e desenho, mas a Revista tomou novo rumo gráfico oferecendo gigantescos espaços de proeminência para as imodestas imagens (fotos) dos diretores febianos.

Apesar de ser um dos quatro periódicos surgidos no Rio de Janeiro, de 1808 a 1889, que sobreviveram até os dias atuais e o único que nunca teve interrompida sua publicação, todavia diversas vezes desviou-se do programa de estudar, difundir e propagar a legítima Doutrina dos Espíritos sob o seu tríplice aspecto (científico-filosófico-religioso), sobretudo durante a coordenação do editor Luciano dos Anjos.

Em verdade, tudo tem matrizes nos eternos diretores roustanguistas que ininterruptamente (há mais de 100 anos) se revezam na direção da FEB até os dias atuais. Nesse confuso cenário foram infligidos e cedidos espaços fadigosos do periódico a fim de veicular as burlescas teses da metempsicose consubstanciada nos “criptógamos carnudos” (involução), do neo-docetismo [2] consoante propostos nas obras do visionário J.B. Roustaing, um “após(tolo)” da discórdia! E pelo que sei, desde a primeira edição já são mais de 15 milhões de exemplares publicados pela FEB.

A trajetória centenária do Reformador se confunde com a própria história do quartel-general de J.B.Roustaing, a FEB,  da qual tem sido a porta-voz e a representação do seu pensamento. Confrades que não rezam pela cartilha roustanguista, embora sejam coordenadores de uma ou outra área doutrinária da FEB (baixo clero), jamais alcançaram lograr maiores destaques administrativos, sendo “aceitos” de esguelha pelos poderosos diretores (alto clero) , todos fanáticos pelo advogado de Bordeaux.

A revista Reformador, não raro, expressou várias vezes uma linha editorial e diretrizes a serviço do Evangelho à maneira sorrateira dos fastidiosos volumes dos “Quatro Evangelhos” de Roustaing, tal como ocorreu na presidência do Armando de Assis. Destaque-se que os quatro volumes de Roustaing são estudados sistematicamente nas reuniões públicas realizadas todas as terças feiras na sede da FEB, em Brasília e na sucursal febiana, sediada na Av. Passos-Rio de Janeiro, e isto diz tudo.

A FEB e UNICAMENTE ELA sucessivamente esteve na dianteira  em defesa do roustanguismo. Nessa linha de contra-senso, tem expressado sempre a prevalência das suas verdades docetistas, embaralhadas e camuflada atrás da boa literatura do Chico Xavier e dos clássicos que edita. A  FEB acredita  que conseguirá catalisar a “unificação” e a unidade da Doutrina; mas em realidade , sempre sucederam e sobrevirão as dissidências (internas e externas) resultantes dos sofismas de princípios insustentáveis pela racionalidade kardeciana.

Para a consubstanciação do projeto da disseminação do docetismo, há mais de um século a FEB vem catequisando à socapa alguns confrades ingênuos. Na volúpia insuperável das interpretações equivocadas dos eternos fascinados pelos “Quatro evangelhos” vai transformando o caleidoscópico Movimento Espírita Brasileiro numa desordem ideológica sem precedentes inspirados nos vaporosos pilares dos engodos dos Quatro Evangelhos.

Com Roustaing narcotizando a mente do alto clero febiano será empreita impraticável evitar a dispersão sistemática e generalizada cada vez mais acentuada dos espíritas, em caminho de desintegração, por força de interferências obsessivas em nível de fascinação. Se a unidade doutrinária foi a única e derradeira divisa de Allan Kardec para o fortalecimento do Espiritismo, a união deve ser a fortaleza inexpugnável da Doutrina Espírita. Em verdade a FEB não conseguiu avançar coisa nenhuma nesse quesito de união entre os espíritas, justamente por que se deixou abater diante dos embustes docetistas, e de outras aberrações doutrinárias contidas na obra do bordelense, razão suficiente para não lograr a unificação,  pois desconhece o poderoso antídoto contra os venenos das discórdias e desuniões, a coerência legada pelas obras codificadas por Allan Kardec.

Herculano Pires na sua sapiência ponderava: “Em os Quatro Evangelhos as verdades são sempre contrariadas pelas mentiras, o natural é prejudicado pelo absurdo e o belo é sempre desfigurado pelo horrível. Jesus é fluidificado, purificado e até endeusado; mas também é ironizado, ridicularizado, deturpado e estupidificado”! “Roustaing é o anti-Kardec. Se Kardec é o bom senso, Roustaing é a falta de bom senso”. [3]

Queira Deus que no futuro não distante ressurja o ideário da concepção e fundação de uma CONFEDERAÇÃO ESPÍRITA no Brasil (sem Roustaing, óbvio!)

Jorge |Hessen

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Referências:

[1]            disponível em http://febnet.org.br/site/conheca.php?SecPad=3&Sec=188  acesso em 13/04/2016

[2]            Os gnósticos-docetas do primeiro século sustentavam que Jesus não tinha realidade física, que o seu corpo era apenas aparente. Sua posição contrariava as teses da encarnação do Cristo, apresentando-o como uma espécie de Deus mitológico, sob a influência das idéias helenísticas. O Docetismo exerceu grande influência em Alexandria, propagando-se a Éfeso, onde o apóstolo João instalara a sua Escola Cristã. João refutou a tese doceta como herética, pois além de não corresponder à realidade histórica, transformava o Cristo num falsário.  A fábula dos docetas ( como o apóstolo Paulo a classificou) apresentava-se como uma das mais estranhas desfigurações do Cristo, fornecendo elementos ricos e valiosos aos mitólogos para negarem a existência real e histórica de Jesus de Nazaré.

[3]            Pires, Herculano. O Verbo e a Carne, São Paulo: Ed Paideia, 1972

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10 Comments to “ROUSTAING – O SESQUICENTENÁRIO TÃO AGUARDADO NA FEB”

  1. GERALDO MAGELA MIRANDA diz:

    Confesso, Jorge, que como frequentador esporádico das casas espíritas, não pude perceber essas nuances que separam a FEB de Kardec.
    Deveria estudar e participar mais para ter um parâmetro real de avaliação.
    Tive alguma impressão disso, já comentada aqui, no REMA, pela postura observada nos irmãos condutores das sessões e da casa. Tive dúvidas a respeito.
    Geraldo Magela Miranda

  2. Irmãos W diz:

    Olá

    Querido amigo….

    Saudações Kardequianas….

    O Reformador e a sua divulgação em seus primórdios no Brasil em 1883…

    Muito se parecem aos primeiros apóstolos de Cristo….

    São lutas de trabalhadores de 1 linha… Luiz Gama, Augusto Elias da Silva e outros….

    Eram os invasores da grande invasão espiritual do Brasil….Na reencarnação de centenas de espíritas que deveria levar adiante.. A Chama do Espiritismo…

    Agora atualmente o Reformador e inexpressivo…Não tem penetração nos meios espírita….

    Falta vida… Falta estudo doutrinário…

    Para mim o Reformador esta morto…Só faltaram enterrar…Como um cadáver…

    E um holofote para Os Mascates vendedores de livros…Exibicionistas de plantão…

    Virou um gigante branco…

    Perdeu a finalidade…

    Não é o que entra pela boca o que contamina o homem, mas o que sai da … Toda a planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada pela raiz

    “Mateus 15:13”

    Agora sobre a questão Roustaing… Se uma pessoa ler as suas obras… Verá que aqueles que apregoam a sua leitura pouco conhecem sobre Allan Kardec… E tão irracional… E a uma falta de coerência em tudo que Roustaing escreveu… Isto também e um cadáver que já devia ser enterrado a muito tempo… Mais a irracionalidade dos ditos dirigentes espíritas… Insistem ressuscitar…

    VAMOS TENTAR ENTERRAR DE VEZ – E QUE TODO ESPÍRITA RACIONAL DEVERIA FAZER

    Fica com Deus

    Jorge Hessen

  3. ROBERTO CURY diz:

    Amigo e irmão Jorge.

    Belíssima página sobre Roustaing e luta de Herculano Pires enfrentando a FEB.

    Abração.

    Roberto Cury

  4. AUGUSTO PERCILIO DUTRA diz:

    Jorge,
    Boa tarde!

    Os seus artigos contribuem para que mantenhamos ( nós, espíritas ) o senso crítico lastreado no codificador, Kardec.

    Um bom feriado e até a próxima palestra no CEAL.
    Augusto Percilio Dutra

  5. Braz Marques diz:

    Comentários de Kardec, em a Revista Espírita, Junho de 1868 – Os Evangelhos Explicados.
    […]
    “O autor desta nova obra julgou dever seguir um outro caminho. Em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto. Assim, tratou certas questões que não tínhamos julgado oportuno abordar ainda e das quais, por consequência, lhe deixamos a responsabilidade, como aos espíritos que as comentaram. Consequente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, até nova ordem não daremos às suas teorias nem aprovação nem desaprovação, deixando ao tempo o trabalho de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opinões pessoais dos espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas e que, em todo o caso, necessitam da sanção do controle universal, e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita…
    Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é para desdenhar e contribui com algo para o sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito extensamente, sem proveito para a clareza. A nosso ver, se, limitando-se ao estritamente necessário a obra poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume e teria ganho em popularidade.”

    Braz Marques

  6. DANTES ARANTE diz:

    olá irmao nao consigo acreditar que vao querer a feb comemorar o sesquicentenario de rustaing. nao ha nada que possamos fazer para impedir? vai criar mais cisões entre nos! nao vou assinar mais o reformador se isso ocorrer. é aquela historia de sempre nossos inimigos estao dentro mesmo
    DANTE

  7. EDUVALDO BORGES diz:

    o livro “Obras Póstumas”, de Kardec, LEMOS NO capítulo V – Dupla natureza de Jesus, página 105: “O que devia ser humano em Jesus era o corpo, a parte material, e neste ponto de vista, compreende-se que ele tenha sofrido como homem”. No capítulo VIII desse livro, Kardec lembra João I, 1 a 14: “E o verbo se fez carne e habitou entre nós; e vimos a sua glória, como filho unigênito do Pai, cheio de graça e verdade”. “Jesus podia, pois, ser encarregado de transmitir a palavra de Deus sem ser Deus, como um embaixador transmite as palavras do seu soberano, sem ser o soberano.”

  8. Júlio Maria Rodrigues Guimarães Júnior diz:

    Que a paz esteja com todos vocês e as suas famílias também. Venho de coração dar a minha opinião, que não tenho a pretensão de ser o dono da verdade. No passado eu acreditava que Roustaing era o motivo da divisão dos espíritas, mas hoje vejo que não. As divisões, os rachas sempre existiram e enquanto vivermos em um planeta de provas e expiações sempre existirão. Gosto muito de aprender sobre todas as religiões, e nos meus estudos das mesmas, tenho percebido que em todas, sem exceção há rachas, brigas e diferenças em formas de se ver um determinado assunto, exatamente como ocorre com o movimento espírita brasileiro no quesito Kardec, Roustaing e outros temas. Só muda a “doutrina” mas as divisões existem em todas as religiões (ex.: no meio Católico – Tradicionais vs. Carismáticos, no evangélico – Neo-Pentecostal vs. Pentecostal vs. Tradicionais vs. Históricos, Armínio, vs Calvinismo, etc…) e cada grupo se diz ser dono da “verdade”, e os grupos de forma sorrateira se guerreia, havendo discórdia, brigas e inimizades entre eles. O que me fez perceber que o problema dos rachas e inimizades não são privilégios dos espíritas, e que muito menos é culpa de se estudar, divulgar, crer ou não em Roustaing. As inimizades, guerras e conflitos são consequências do ego, do orgulho e da maldita pretensão do homem de se achar único de posse da “verdadeira verdade” e não se contendo em possuir tal “verdade”, ele quer que todos creiam na forma como ele crer. Kardec sempre ensinou que proibir o estudo e a divulgação de um livro é provar que o tememos, logo, se Roustaing é uma mentira, não se deve impedir ou temer o estudo e a divulgação de sua obra, além de que tal prática é uma censura, e ninguém tem direito de censurar esse ou aquele livro. O problema dos cismas só será resolvido quando entendermos que todos os problemas do ser humano são oriundos do orgulho, da maledicência e do egoísmo. Quando todos entendermos que devemos praticar a reforma íntima, nos preocupando em sermos hoje melhores do que ontem e amanhã melhores do que hoje, que a nossa preocupação seja de amarmos as pessoas pelo que elas são, sem nos preocuparmos em querer mudá-las, as amando pelas suas virtudes e não pelos seus defeitos, todas as dissenções, preconceitos, cismas e guerras irão acabar. Sou a favor da venda e divulgação de “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing, mas sem o impor a ninguém, porque cada um deve ser livre para querer em acreditar em “x” ou “y” e porque entendo que todos os problemas do ser humano são frutos de suas imperfeições, são de ordem moral e não doutrinária, além de que sou radicalmente contra qualquer tipo de censura e defendo o direito das pessoas de crerem no que elas bem entendam, porque a liberdade de crença é um direito inviolável. Que o bom Deus abençoe e proteja a todos vocês e seus familiares hoje e sempre. Um abraço fraterno…

  9. caro Julio Maria Rodrigues Guimarães Junior

    Diante do seu comentário,que concordo em ¨”gênero, numero e grau”, pouco poderia dizer.!
    Na casa espirita que frequento, temos na grade curricular dos cursos doutrinários, o estudo dos Quatro Evangelhos de Roustaing.. Nao temos nenhum transtorno advindo deste conhecimento a mais.
    Até quando o ser humano pretende permanecer neste mundinho do faz de conta? – Faz de conta que sou espirita…faz de conta que estudo Kardec…faz de conta que estudo o Evangelho.. e tantos outros “faz de conta”.
    Ora, se somos espiritas, a primeira coisa que aprendemos é sobre o livre arbítrio! !
    esta coisa de “rachas” existe em qualquer local onde a mente é pequena. É do homem !!!
    Lembrando sempre que, nós fazemos parte daquilo que sintonizamos!!. Portanto, vamos incentivar a abertura de consciências e que, cada individuo faça a sua escolha. Há dois mil anos passados e ainda estamos de mentes tao fechadas. É preciso conhecer pra fazer escolhas.! Se o trabalho do próprio kardec teve sérias dificuldades de aceitação…e tem até hoje… Sou capelã e, quando vamos,( eu e alguns amigos de trabalho) realizar visitas em um hospital, evitamos dizer qual a nossa religião , a pedido da direção pois, alguns pacientes rejeitam preces feitas por grupos espíritas.Pode???..Sim, pode sim.! Respeitamos o livre arbítrio destes irmãos ainda tão preconceituosos,( por falta de conhecimento.. ou não!) Realizamos nosso trabalho,.explicando quando perguntado que, somos irmãos a serviço do Cristo, levando a Boa Nova! Oramos juntos e tudo fica bem! Um abraço a todos!

  10. VANDEIR diz:

    A GÊNESE ALAN KARDEC – DESAPARECIMENTO DO CORPO DE JESUS
    64. O desaparecimento do corpo de Jesus após sua morte
    há sido objeto de inúmeros comentários. Atestam-no os
    quatro evangelistas, baseados nas narrativas das mulheres
    que foram ao sepulcro no terceiro dia depois da crucificação
    e lá não o encontraram. Viram alguns, nesse desaparecimento,
    um fato milagroso, atribuindo-o outros a uma
    subtração clandestina.
    1 Dele unicamente fala o historiador judeu Flávio Josefo, que, aliás,
    diz bem pouca coisa.
    Sem título-1 446 13/04/05, 16:09
    OS MILAGRES DO EVANGELHO 447
    Segundo outra opinião, Jesus não teria tido um corpo
    carnal, mas apenas um corpo fluídico; não teria sido, em
    toda a sua vida, mais do que uma aparição tangível; numa
    palavra: uma espécie de agênere. Seu nascimento, sua morte
    e todos os atos materiais de sua vida teriam sido apenas
    aparentes. Assim foi que, dizem, seu corpo, voltado ao
    estado fluídico, pode desaparecer do sepulcro e com esse
    mesmo corpo é que ele se teria mostrado depois de
    sua morte.
    É fora de dúvida que semelhante fato não se pode considerar
    radicalmente impossível, dentro do que hoje se sabe
    acerca das propriedades dos fluidos; mas, seria, pelo menos,
    inteiramente excepcional e em formal oposição ao caráter
    dos agêneres. (Cap. XIV, nº 36.) Trata-se, pois, de saber
    se tal hipótese é admissível, se os fatos a confirmam ou
    contradizem.
    65. A estada de Jesus na Terra apresenta dois períodos: o
    que precedeu e o que se seguiu à sua morte. No primeiro,
    desde o momento da concepção até o nascimento, tudo se
    passa, pelo que respeita à sua mãe, como nas condições
    ordinárias da vida1. Desde o seu nascimento até a sua morte,
    tudo, em seus atos, na sua linguagem e nas diversas circunstâncias
    da sua vida, revela os caracteres inequívocos
    da corporeidade. São acidentais os fenômenos de ordem
    1 Não falamos do mistério da encarnação, com o qual não temos que
    nos ocupar aqui e que será examinado ulteriormente.
    Nota da Editora: Kardec, em vida, não pôde cumprir esta promessa,
    visto que, no ano seguinte, ao dar publicação a esta obra, foi
    chamado à Pátria Espiritual.
    Sem título-1 447 13/04/05, 16:09
    448 A GÊNESE
    psíquica que nele se produzem e nada têm de anômalos,
    pois que se explicam pelas propriedades do perispírito e se
    dão, em graus diferentes, noutros indivíduos. Depois de
    sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. É
    tão marcada a diferença entre os dois estados, que não
    podem ser assimilados.
    O corpo carnal tem as propriedades inerentes à matéria
    propriamente dita, propriedades que diferem essencialmente
    das dos fluidos etéreos; naquela, a desorganização
    se opera pela ruptura da coesão molecular. Ao penetrar no
    corpo material, um instrumento cortante lhe divide os tecidos;
    se os órgãos essenciais à vida são atacados, cessa-lhes
    o funcionamento e sobrevém a morte, isto é, a do corpo.
    Não existindo nos corpos fluídicos essa coesão, a vida aí já
    não repousa no jogo de órgãos especiais e não se podem
    produzir desordens análogas àquelas. Um instrumento cortante
    ou outro qualquer penetra num corpo fluídico como
    se penetrasse numa massa de vapor, sem lhe ocasionar
    qualquer lesão. Tal a razão por que não podem morrer os
    corpos dessa espécie e por que os seres fluídicos, designados
    pelo nome de agêneres, não podem ser mortos.
    Após o suplício de Jesus, seu corpo se conservou inerte
    e sem vida; foi sepultado como o são de ordinário os
    corpos e todos o puderam ver e tocar. Após a sua ressurreição,
    quando quis deixar a Terra, não morreu de novo; seu
    corpo se elevou, desvaneceu e desapareceu, sem deixar
    qualquer vestígio, prova evidente de que aquele corpo era
    de natureza diversa da do que pereceu na cruz; donde forçoso
    é concluir que, se foi possível que Jesus morresse, é
    que carnal era o seu corpo.
    Sem título-1 448 13/04/05, 16:09
    OS MILAGRES DO EVANGELHO 449
    Por virtude das suas propriedades materiais, o corpo
    carnal é a sede das sensações e das dores físicas, que repercutem
    no centro sensitivo ou Espírito. Quem sofre não
    é o corpo, é o Espírito recebendo o contragolpe das lesões
    ou alterações dos tecidos orgânicos. Num corpo sem Espírito,
    absolutamente nula é a sensação. Pela mesma razão,
    o Espírito, sem corpo material, não pode experimentar os
    sofrimentos, visto que estes resultam da alteração da matéria,
    donde também forçoso é se conclua que, se Jesus
    sofreu materialmente, do que não se pode duvidar, é que
    ele tinha um corpo material de natureza semelhante ao de
    toda gente.
    66. Aos fatos materiais juntam-se fortíssimas considerações
    morais.
    Se as condições de Jesus, durante a sua vida, fossem
    as dos seres fluídicos, ele não teria experimentado nem a
    dor, nem as necessidades do corpo. Supor que assim haja
    sido é tirar-lhe o mérito da vida de privações e de sofrimentos
    que escolhera, como exemplo de resignação. Se tudo
    nele fosse aparente, todos os atos de sua vida, a reiterada
    predição de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das Oliveiras,
    sua prece a Deus para que lhe afastasse dos lábios o
    cálice de amarguras, sua paixão, sua agonia, tudo, até ao
    último brado, no momento de entregar o Espírito, não teria
    passado de vão simulacro, para enganar com relação à sua
    natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida,
    numa comédia indigna de um homem simplesmente honesto,
    indigna, portanto, e com mais forte razão de um ser tão
    superior. Numa palavra: ele teria abusado da boa-fé dos seus
    contemporâneos e da posteridade. Tais as conseqüências
    Sem título-1 449 13/04/05, 16:09
    450 A GÊNESE
    lógicas desse sistema, conseqüências inadmissíveis, porque
    o rebaixariam moralmente, em vez de o elevarem. 1
    Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal
    e um corpo fluídico, o que é atestado pelos fenômenos
    materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram
    a existência.
    67. Não é nova essa idéia sobre a natureza do corpo de
    Jesus. No quarto século, Apolinário, de Laodicéia, chefe da
    seita dos apolinaristas, pretendia que Jesus não tomara
    um corpo como o nosso, mas um corpo impassível, que
    descera do céu ao seio da santa Virgem e que não nascera
    dela; que, assim, Jesus não nascera, não sofrera e não
    morrera, senão em aparência. Os apolinaristas foram
    anatematizados no concílio de Alexandria, em 360; no de
    Roma, em 374; e no de Constantinopla, em 381.
    Tinham a mesma crença os Docetas (do grego dokein,
    aparecer), seita numerosa dos Gnósticos, que subsistiu
    durante os três primeiros séculos.2

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