Sempre pela conservação da vida ante a moléstia delongada

Abr 13th, 2017 | By | Category: Artigos

ortotanasiaNo dia 11 de abril de 2017 a Justiça britânica autorizou os médicos a desconectar, contra a vontade dos pais, o suporte vital a Charlie Gard, um bebê de oito meses, que sofre de uma rara doença genética. A decisão do Alto Tribunal foi recebida com gritos de “não!” pela família, que pretendia levar o bebê aos Estados Unidos para um tratamento experimental. No entanto, os médicos do Hospital Great Ormond Street de Londres consideram que já é hora de que a criança, que sofre de danos cerebrais, receba cuidados paliativos.

Os pais de Charlie Gard estão “arrasados” com a decisão judicial, segundo sua advogada, Laura Hobey-Hamsher. O juiz Nicholas Francis disse que tomou a decisão “com a maior das tristezas”, mas com “a absoluta convicção” de estar fazendo o melhor para o bebê, que merece “uma morte digna”.

Durante o julgamento, uma médica explicou que a criança já não ouve nem se mexe, e que está sofrendo desnecessariamente. Charlie tem uma forma de doença mitocondrial que causa o enfraquecimento progressivo dos músculos, além de danos cerebrais.

O caso despertou grande interesse no Reino Unido, e seus pais, Chris Gard e Connie Yates, abriram uma campanha de arrecadação de fundos que arrecadou o 1,2 milhão de libras de que necessitavam para levar a criança aos Estados Unidos, graças às doações de mais de 80.000 pessoas. [i]

Temos aqui um exemplo clássico de autorização de eutanásia? Cremos que não! – A eutanásia encerra outra característica, lembrando que é uma prática que não tem o apoio da Doutrina Espírita. Apareceu no entanto ultimamente a ideia de ortotanásia, defendida até mesmo por médicos espíritas.

Muitos médicos revelam que eutanásia é prática habitual em UTI’s do Brasil, e que apressar, sem dor ou sofrimento, a morte de um doente incurável é ato frequente e, muitas vezes, pouco discutido nas UTIs dos hospitais brasileiros. Apesar de a Associação de Medicina Intensiva Brasileira negar que a eutanásia seja frequente nas UTIs, existem aqueles que admitem razões mais práticas, como por exemplo a necessidade de vaga na UTI para alguém com chances de sobrevivência ou a pressão na medicina privada para diminuir custos.

Nos Conselhos Regionais de Medicina, a tendência é de aceitação da eutanásia, exceto em casos esparsos de desentendimentos entre familiares sobre a hora de cessar os tratamentos. Médicos e especialistas em bioética defendem na verdade um tipo específico de eutanásia – a ortotanásia, que é o caso de Charlie Gard, que seria o ato de retirar equipamentos ou medicações, de que se servem para prolongar a vida de um doente terminal.Ao retirar esses suportes de vida (equipamentos ou medicações), mantendo apenas a analgesia e tranquilizantes, espera-se que a natureza se encarregue da morte. A eutanásia vem suscitando controvérsias nos meios jurídicos, lembrando, no entanto, que a nossa Constituição e o Direito Penal Brasileiro são bem claros: constitui assassínio comum. Nas hostes médicas, sob o ponto de vista da ética da medicina, a vida é considerada um dom sagrado, e portanto é vedada ao médico a pretensão de ser juiz da vida ou da morte de alguém.

A propósito, é importante deixar consignado que a Associação Mundial de Medicina, desde 1987, na Declaração de Madrid, considera a eutanásia como sendo um procedimento eticamente inadequado. No aspecto moral ou religioso, sobretudo espírita, lembremos que não são poucos os casos de pessoas desenganadas pela medicina, oficial e tradicional, que procuram outras alternativas e logram curas espetaculares, seja através da imposição das mãos, da fé, do magnetismo, da homeopatia ou mesmo em decorrência de mudanças comportamentais.

Criaturas outras, com quadros clínicos de doenças incuráveis, uma vez posto o magnetismo em atividade, também conseguem reverter as perspectivas de uma fatalidade, com efetivas melhoras, propiciando horizontes de otimismo para suas almas. Não cabe ao homem, em circunstância alguma, ou sob qualquer pretexto, o direito de escolher e deliberar sobre a vida ou a morte de seu próximo, e a eutanásia ou mesmo a ortotanásia, essa falsa piedade, atrapalha a terapêutica divina, nos processos redentores da reabilitação.

Nós espíritas sabemos que a agonia prolongada pode ter finalidade preciosa para a alma e a moléstia incurável pode ser, em verdade, um bem. Nem sempre conhecemos as reflexões que o Espírito pode fazer nas convulsões da dor física e os tormentos que lhe podem ser poupados graças a um relâmpago de arrependimento.

Dessa forma, entendamos e respeitemos a dor, como instrutora das almas, e sem vacilações ou indagações descabidas amparemos quantos lhes experimentam a presença constrangedora e educativa, lembrando sempre que a nós compete tão somente o dever de servir, porquanto a Justiça, em última instância, pertence a Deus, que distribui conosco o alívio e a aflição, a enfermidade, a vida e a morte no momento oportuno. O verdadeiro cristão porta-se, sempre, em favor da manutenção da vida e com respeito aos desígnios de Deus, buscando não só minorar os sofrimentos do próximo – sem eutanásias/ortotanásias, claro! – mas também confiar na justiça e na bondade divina, até porque nos Estatutos de Deus não há espaço para injustiças.

Jorge Hessen

Referência:

[1] Disponível em http://exame.abril.com.br/mundo/contra-vontade-dos-pais-juiz-britanico-autoriza-morte-de-bebe/, Acessado em 11 de abril de 2017

 

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3 Comments to “Sempre pela conservação da vida ante a moléstia delongada”

  1. Irmãos W. diz:

    Olá

    Caros amigos…

    Se acreditarmos somente que existe somente esta vida… E que ao morrer tudo acaba… Parece justificável a Eutanásia… Mais se somos imortais… E possuímos múltiplas existências… E acima de tudo existe uma finalidade para a nossa vida atual… Quem tem direito de tirar a vida e somente Deus… Que tem um projeto de vida para cada ser que nasce na terra…

    Fiquem com Deus

    Wanderlei

  2. PEDRO ILHO diz:

    A inteligência e a sabedoria do homem anda na contra-mão da Lei de Deus. O homem se acha dono da situação, ele sabe tudo, ele pode tudo, e até quem deve viver ou morrer. Não sabe o homem que enquanto um pulmão respira, ainda que seja com aparelho, enquanto um coração bate dentro de um peito, aquele espírito que ali está, tem compromisso com a vida, compromisso com a Lei de Deus, e somente Ele pode determinar a hora que o espírito pode e deve abandonar aquele corpo. Se uma pessoa vive, ainda que com aparelho para mantê-lo vivo, é porquê há necessidade que assim seja. Quem é a justiça britânica para determinar que uma criança mesmo com aparelho deixe de respirar, e ainda contra a vontade da família, veja aonde chega a arbitrariedade humana, isso mostra mesmo a classe de mundo em que vivemos…

  3. GERALDO MAGELA MIRANDA diz:

    Eu acho bastante controversa a ideia e a prática da cessação da vida de alguém, pelo princípio básico do propósito da existência e suas consequências.

    Como você bem coloca, há uma razão para essa existência, mesmo com o sofrimento que ela possa impor àquele encarnado que o carrega e suporta.

    Nesse sentido, parece que não temos o direito de deliberar sobre isso, embora possa parecer muitas vezes o remédio mais eficaz contra o sofrimento. Ou seja, a pretexto de poupar alguém de seu sofrimento, uma vez que não se encontre outro meio de suprimi-lo, estaremos nos contrapondo à lição divina da existência.
    Geraldo Magela Miranda

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