SERÁ O CARNAVAL UMA FESTA DE ALEGRIA, DE PAZ E LOUVOR?

Fev 6th, 2015 | By | Category: Artigos

carnavalCom o risco de sermos taxados de moralistas, num tempo em que se perdem as noções de moralidade, não podemos deixar de analisar criticamente alguns absurdos do mundo de Momo. Sem determinar regras de falsa santidade e árduos sermões impulsionados pelas cantilenas morais, não deixaremos de comentar sobre os prejuízos espirituais decorrentes das comemorações do Carnaval.

Há muitos séculos o Carnaval era marcado por grandes festas, em que se comia, bebia e participava de frenéticas celebrações e busca incessante dos prazeres. [2] Prolongava-se por sete dias (no mês de dezembro) nas ruas, praças e casas da antiga Roma. Todas as atividades e negócios eram suspensos nesse período; os escravos ganhavam liberdade temporária para fazer o que quisessem e as restrições morais eram relaxadas. Um rei (saturnalicius princeps) era eleito por brincadeira e comandava o cortejo pelas ruas.

Não fossem os exageros, o carnaval, como festa de relação sociocultural, poderia se tornar um evento compreensível, até porque não admitir isso seria incorrer postura de intolerância. Há pessoas que buscam fazer do carnaval um momento de esperança, oportunizando empregos, abrigando menores, e isso tem o seu valor social. Entretanto, a bem da verdade, o grande saldo da homenagem a Momo se resume em três palavras: violência, ilusão e sensualidade.

Reza a tradição que o folguedo de Momo surgiu permeando o mundo “sagrado” e o orbe profano. Sinceramente! Não conseguimos compreender algo de “abençoado” nas folias momescas. Entretanto, em São Paulo há a escola de samba Dom Bosco, em Itaquera, zona leste da cidade, cujo presidente é um padre salesiano de 73 anos e o vice-presidente é um sacerdote de 37 anos que toca inclusive repinique (tambor com baquetas) na bateria.
Além de celebrar missas, casamentos e coordenar projetos sociais, a dupla de sacerdotes obviamente participa dos ensaios da “Dom Bosco”. Ambos desejam arrastar 1.200 componentes ao Sambódromo do Anhembi, e entre os sambistas constam baianas, passistas (seminuas, portanto, nada beatas), velha-guarda e destaques. O enredo homenageia o fundador da congregação salesiana: “Dom Bosco: 200 Anos de Amor ao Próximo… Um Presente para o Mundo”.

Para os clérigos, idealizadores da escola de samba, a concepção da agremiação foi a saída encontrada para unir um grupo de jovens mais desregrado, que não estudava e era bastante desinteressado nas atividades educativas oferecidas pela obra social da igreja. Entretanto, tal artifício para atrair a juventude não tem sido apreciado por alguns fiéis e superiores da Igreja romana.

Isso nos remete a recordar a escola de samba Unidos do Viradouro que em 2011 levou para a Sapucaí um carro alegórico carregando uma imagem do Chico Xavier. O médium de Uberaba foi representado por uma escultura (psicografando) cercada por 60 componentes, alguns deles “espíritas” (!?), que fizeram uma performance de “trabalho mediúnico” (!?). Santo Deus! Nada mais burlesco.

Será que o Carnaval é apenas um festival de alegria, de paz e louvor? A princípio, o Espiritismo não estimula nem recrimina o Carnaval e respeita todos os sentimentos humanos. Porém, será que a farra carnavalesca, vista como uma manifestação popular, consegue satisfazer os caprichos da carne sem deteriorar o espírito? Será lícito confundir “diversão” passageira com alegria legítima? O carnaval é um desses delírios coletivos, cuja reverência a Momo representa a ocasião em que pessoas projetam o que há de mais irracional e de mais incivilizado em si mesmas.

É verdade! O Espiritismo nada proíbe, nada obriga, nem censura o carnaval; porém igualmente, não defende sua realização. Sabe-se que durante a folia de Momo são perpetrados abusos de todos os tipos e, mormente, desregramentos da carga erótica de adolescentes, jovens, adultos e até idosos (mal resolvidos); há consumo exagerado de álcool e outras drogas, instalação da violência generalizada, excessos esses que atraem espíritos vinculados ao deletério parasitismo magnético, semelhantes aos urubus diante de carcaças deterioradas (carniças).

Os foliões de plantão reafirmam que o carnaval é um extravasador de energias reprimidas. Entretanto, nos três dias não são atenuadas as taxas de agressividade e nem as neuroses. O que se observa é um somatório da selvageria urbana e de desgraça doméstica. Após os festivais de erotismos surgem as gravidezes desatinadas e a consequente propagação de criminosos abortos, acontecem graves acidentes de trânsito, aumento da criminalidade, estupros, suicídios, aumento do consumo de várias substâncias estupefacientes, alcoólicos, assim como o surgimento de novos drogados, disseminação das enfermidades sexualmente transmissíveis (inclusive a AIDS).

Em síntese, se o Carnaval é uma ameaça concreta ao bem-estar social, nós espíritas temos muito a ver com ele, porque uma das tarefas primordiais de cada espírita é a de lutar por dispositivos de preservação dos valores mais dignos da Sociedade, sem que se violente, obviamente, o direito relativo do livre-arbítrio coletivo e individual, jamais nos esquecendo que no carnaval ocorre a obsessão nos seus vários matizes como conseqüência da invigilância e dos desvios morais. Somente poderemos garantir a vitória do Espírito sobre a matéria, se fortalecermos a nossa fé, renovando-nos mentalmente, praticando o bem nos moldes dos códigos propostos por Jesus Cristo, e não esquecendo os divinos conselhos do Mestre: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação”. [1]

Em suma, cremos que inexista outro caminho que não seja o da abstinência sincera das folias de Momo. O bom senso nos convida a aproveitar o feriadão para entrosamento com os familiares, leitura de livros instrutivos, frequência a reuniões espíritas. Aliás, será coerente fechar as portas dos centros espíritas nos dias de Carnaval, ou mudar o procedimento das reuniões? Existem alguns centros que fecham suas portas nos feriados do carnaval sem motivos racionais. Em verdade, o espírita pode participar de eventos educacionais, culturais ou mesmo descansar em casa, já que o ritmo frenético do dia a dia exige, cada vez mais, preparo e estrutura físico-psicológica para os embates pelo ganha-pão.

Em face do determinismo da Lei de Evolução, um dia tudo isso passará, todas as manifestações ruidosas que marcam nosso estágio de inferioridade desaparecerão da Terra. Em seu lugar, então, predominarão a alegria pura, a jovialidade, a satisfação e o júbilo real, com o homem despertando para a beleza e a arte, sem violência, nem degeneração moral.

Jorge Hessen

Referências:
[1] A Festa do deus Líber em Roma; a Festa dos Asnos que acontecia na igreja de Ruan no dia de Natal e na cidade de Beauvais no dia 14 de janeiro, entre outras inúmeras festas populares em todo o mundo e em todos tempos, têm esta mesma função.
[2] Mt 26:41

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10 Comments to “SERÁ O CARNAVAL UMA FESTA DE ALEGRIA, DE PAZ E LOUVOR?”

  1. GERALDO MAGELA MIRANDA diz:

    Caro Jorge, creio que o Carnaval seja apenas mais um dos artifícios de que o homem comum lança mão para sua distração. E como é uma oportunidade para a propalada extravasão, decorrem daí as mais variadas consequências, para além da alegria.
    Já fui adepto da folia, mas hoje não vejo mais sentido naquela coisa repetitiva e cansativa; tornou-se uma manifestação vazia, e acho que as pessoas não fazem reverência a Momo, mas a si mesmas. O grande lance pra muitos no cair na folia é mesmo soltar os cachorros internos como forma de lavar a alma.
    Claro que isso é vazio para a espiritualidade, pois não acrescenta nenhum beneficio para a alma, apenas mais um equívoco de quem está na veste da carne, como tantos outros que cometemos.
    Geraldo Magela Miranda

  2. ELISABETE DE SOUZA diz:

    Concordo plenamente.O Carnaval , nada mais é do que uma desculpa, para liberar os bichos internos, aonde , acaba o respeito aos outros e si mesmo.

  3. Irmãos W diz:

    Olá

    Caro amigo…

    Ainda possuimos pouca informação… Do que ocorre no plano espiritual no periodo do carnaval… Mais como luz atraia luz… Trevas atraia trevas… Os mesmos sentimentos que inspiram o carnaval.. Vai atrair os espíritos com a mesma sintonia….

    Vamos pensar amigos….O que queremos para nós….

    Irmãos W
    http://www.autoresespiritasclassicos.com

  4. Marco Coimbra diz:

    Quanto a informações sobre o carnaval olhado do mundo espiritual, leiam o livro “Nas Fronteiras da Loucura” psicografado pelo médium Divaldo Pereira Franco e ditado pelo espírito Manoel Philomeno de Miranda. No citado volume equipes socorristas, comandadas pelo espírito Bezerra de Menezes, trabalham nessa época no Rio de Janeiro.

  5. CARMELIA PACHECO diz:

    No carnaval, há excessos de toda natureza, mas se somos bons e temos o bem e luz interior, em qualquer lugar, até mesmo na folia do carnaval, podemos projetar essa luz para aqueles que estão do nosso lado, ou próximos a nós e quem sabe evitar os excessos. Perto dos bons não provamos que somos bons. O desafio maior é iluminar na escuridão

  6. Regina Ribeiro diz:

    O que me chama a atenção é que , algumas semanas antes do carnaval propriamente dito , recebemos comunicações de irmãos que são levados às reuniões mediúnicas quase que num misto de resgate… de alguma forma, dependentes do sexo , do álcool, das drogas e que nestes dias têm suas dependências mais abertamente atendidas….e a maneira que o os Amigos Espirituais encontram de auxiliar alguns destes espíritos menos felizes é tentando uma orientação e procurando encaminhá-los ao atendimento nos hospitais localizados nas faixas mais próximas da Terra ou até mesmo do centro que tenha condição e estrutura para recebê-los…. enfim, os encarnados é que me parecem em não poucos casos ” a má companhia” nestas horas…..no mais, as leituras mencionadas acima são muito interessantes…vale conferir…. a todos desejo que esses dias sejam de reflexão , restabelecimento de forças , convivência fraterna com a família e os amigos….e acréscimo de conhecimento no Bem através da leitura de livros edificantes ou das palestras realmente esclarecedoras…..

  7. Prezado irmão Jorge Hessen,

    Com grande satisfação íntima encontramos em seu artigo a sã conclusão de que a turbulência dos dias de carnaval não se coaduna de modo algum com o mundo que queremos para nós e para nossos filhos. Parabéns, caro Jorge, pela clareza dos argumentos e pela honestidade corajosa com que o afirma, ainda em tempos de perigosas concessões morais, mesmo entre nossas fileiras…! Abraços de Marcia e família (Rio de Janeiro, capital)

  8. Prezado irmão Jorge Hessen,

    Com grande satisfação íntima encontramos em seu artigo a sã conclusão de que a turbulência dos dias de carnaval não se coaduna de modo algum com o mundo que queremos ´para nós e para nossos filhos. Parabéns, caro Jorge, pela clareza dos argumentos e pela honestidade corajosa com que o afirma, ainda em tempos de perigosas concessões morais, mesmo entre nossas fileiras…! Abraços de Marcia e família (Rio de Janeiro, capital)

  9. Heliete Coutinho Sampaio diz:

    Parabéns nosso prezado irmão Jorge, pelo seu excelente artigo!…Que possamos refletir em tudo o que foi exposto neste artigo e sentiremos que é o que realmente nos elucida a Doutrina Espírita.Que o Senhor abençoe a todos nós, principalmente nestes dias de Carnaval!…

  10. SERGIO DE JESUS ROSSI diz:

    Caro Jorge,

    Acabei de ler o texto sobre o carnaval, primoroso como sempre.

    Muito oportuna a recomendação de “abstinência sincera”, porque a resistência a atitudes não recomendáveis deve ser uma opção do espírita verdadeiro, de modo natural, sem o sentido de “sacrifício”.

    A prática do bem e o afastamento do mal serão, um dia, automáticos para o ser humano, a única decisão possível.

    Por enquanto, a nossa ética ainda claudica, neste mundo imperfeito, mas a humanidade progride, lenta mas infrene, ao longo das eras.

    Ainda neste tema, tive a oportunidade de apresentar palestra sobre o carnaval e o Espiritismo, em nossa casa e em duas outras que visitei.

    Baseei a minha fala em dois pontos primordiais.

    Inicialmente, a frase lapidar de Paulo de Tarso: Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém.

    Em seguida, o texto contido no livro “Ponto de Encontro”, psicografia de Chico Xavier, ditada por Jair Presente.

    O autor espiritual responde, em versos, a uma pergunta de uma irmã encarnada sobre o carnaval.

    Exibe a coerência, a moderação e o apego à verdade que sempre atraem ao espírita sincero, e nos mantêm confiantes na doutrina da luz.

    Irmã, você nos consulta
    Se, acaso, existe algum mal
    Em ver por fora e por dentro
    A festa do carnaval

    Nunca esperei tal pergunta,
    Nem sei dizer sim ou não,
    Porquanto, estando entre os homens,
    Quis sempre ser folião.

    Ir ver à festa somente,
    Acompanhar a arrelia,
    Pode ser refazimento
    Na carência da alegria.

    Carnaval ? De modo algum,
    Importa que você vá;
    Apenas é bom saber
    O que você quer por lá.

    Receba o meu abraço fraterno,

    Sérgio de Jesus Rossi
    C. E. Paulo de Tarso

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