UMBANDA E ESPIRITISMO CRISTÃO NUMA AVALIAÇÃO OPORTUNA

Out 21st, 2015 | By | Category: Artigos

auband

Confrades solicitaram-me comentar novamente sobre a tendência umbandista nas instituições espíritas cristãs. Disseram-me que muitos centros “espíritas”, localizados no planalto central, possuem dirigentes, trabalhadores e frequentadores que ainda não se desataviaram dos ritos umbandizantes. São frequentadores, médiuns e doutrinadores que não conseguem se livrar das entidades de “terreiro”. Como se não bastasse, há os que elegem na instituição espírita cristã “mentores ou mentoras” de espíritos impregnados dos atavismos psicológicos de “vovós sicranas” ou “vovôs beltranas”, ou veneram “ex” “preto(as) velhos(as)” etc., como se tais “entidades” fossem campeãs da humildade. Nada mais inconsistente! E não se podem comparar tais “entes” com os sensatos espíritos que se apresentaram como “ex-padres” e “ex-freiras” na concepção da Codificação Espírita.

A rigor, os cognominados “vós fulanas”, “vôs fulanos”, “pretos(as) velhos(as)”, “índios”, “caboclos” e semelhados, quando desencarnados, não mais pertencem a quaisquer das distintas raças humanas terrenas. No além-túmulo, o espírito não é amarelo, nem vermelho, nem negro, nem branco, embora possa apresentar em seu perispírito distinções de alguma raça, idade, se ainda assim se sentir em face da limitação moral e intelectual e ou assim se conceber, como sucedeu numa das reuniões realizadas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em que Allan Kardec dialogou com um Espírito de um “velhinho” (Pai César), episódio narrado na “Revista Espírita” de junho de 1859.

A entidade disse a Kardec que havia desencarnado em 8 de fevereiro de 1859, com 138 anos de idade. Tal fato [idade] chamou a atenção do Codificador, que logo se interessou em obter, da Espiritualidade, mais informações sobre o falecido. O “velhinho” disse que havia nascido na África e tinha sido levado para Louisiana [EUA] quando tinha apenas 15 anos. Desabafou, expondo a todos as mágoas guardadas em seu coração, fruto dos sofrimentos por que passara na Terra em função do preconceito da época. E tamanhas eram as feridas que trazia no peito que chegou a dizer a Kardec que não gostaria de voltar à Terra novamente como negro.

Será que um “vovô”, uma “vovó”, um(a) preto(a) velho(a), pode ser mentor(a) espiritual de uma casa espírita cristã? Em que pese considerar estranhíssima essa situação, talvez sim! Quem sabe possa uma dessas entidades, através de suas palavras e atos, mostrar que é digna desse título, se demonstrar conhecimentos doutrinários superiores aos nossos a fim de nos orientar e manifesto amor para nos exemplificar. Porém, não! se evidenciar insuficiente cultura, pouca evolução espiritual e muito apego ainda às sensações materiais (exigir os títulos de “vovô”, “vovó”, preto(a) velho(a), linguajar primário, argumentos infantis, raciocínio vagaroso, etc.

A maioria absoluta das comunicações de pretos-velhos como “mentores espirituais” de uma instituição genuinamente espirita cristã é resultado da insipiente sugestão mediúnica, do incabível animismo, ou dos ardis psicológicos e das teimosas mistificações. Pessoalmente não aprovo nem compreendo a manifestação de um “Bezerra de Menezes” travestido de velhinho caquético com voz de “defunto”. Creio que há animismo nesse “transe” ou vício psicológico do “intermediário”.

Não desconhecemos que houve, seguramente, espíritos bondosos que encarnaram entre os negros africanos para inspirar aquele povo sofrido, de modo sábio e amoroso, durante o seu cativeiro. Alguns deles, após a morte, certamente tenham podido regressar à retaguarda terrena, por amor ao próprio crescimento espiritual no serviço do bem. Mas não foram numerosos tais espíritos “bonzinhos”, “humildezinhos”; pela lógica, foram raros, porque quase a totalidade dos escravos eram como nós: espíritos de mediana ou pouquíssima evolução.

Há obsessores (e não são poucos) que fingem essa aparência e linguajar (de entes de “terreiros”) com o objetivo de iludir e manter sob hipnose os espíritas ignorantes. Diante desses perspicazes seres do além (às vezes tão-somente produto da mente do “médium”), procuramos adverti-los, alertá-los para a responsabilidade pelos seus atos. Se não acolherem nossas advertências apelamos ao expediente da austeridade verbal e da segurança moral para que se arredem do local, exorando, por nossa vez, o amparo dos diretores espirituais da sessão.

Nas sessões mediúnicas que dirijo há 4 décadas, se ocasionalmente há manifestação de tais espíritos (“vós”, “vôs”, “pretos(as) velhos(as)”, caboclos e correlatos), se for permitida pela espiritualidade diretora da sessão, tais espíritos são orientados adequadamente. Não permitimos qualquer intolerância ou preconceito contra eles. Entretanto, analisamos atentamente sua natureza e o conteúdo de suas comunicações, como fazemos com qualquer espírito que se manifeste no grupo. Tais espíritos, para se comunicarem mediunicamente, não precisam e nem estimulamos o uso de linguajar bizarro, incompreensível aos médiuns e aos participantes da reunião.

O bom senso recomenda que se um desses desencarnados insistir na aparência ou linguajar momentaneamente de suas personagens do passado e deseja evidenciar sua identidade, a manifestação será admissível, se houver quem o possa identificar. Caso contrário será uma comunicação improdutiva. Se tais entidades se apresentam com atavismos da última encarnação (ex-escravos “velhos ou novos”, índios etc.) buscamos orientá-los, a fim de se libertarem desse atavismo. Assim, buscamos esclarecê-los quanto à sua real natureza de espíritos em evolução. Na doutrinação nos esforçamos para advertir-lhes que já reencarnaram diversas vezes em diferentes condições e, portanto, têm patrimônio espiritual mais vasto que um simples “velho” ou correlato de uma raça sofrida.

Deste modo, procuramos revelar-lhes que não precisam se fixar no psiquismo da existência que concluíram, e que na vida espiritual podem continuar progredindo em todos os aspectos, até mesmo no modo de se vestir e falar. Há os que usam sutis subterfúgios, dizendo que se apresentam assim porque tal ou qual encarnação lhes foi muito grata por lhes haver permitido adquirir “virtudes”, especialmente a “humildade” e daí seu desejo em exemplificar. Óbvio que esse argumento é astucioso, pois quem conquistou a virtude da humildade não precisa trombetear e ou ostentar trejeitos de falsas modéstias. Por essa razão orientamos tais “velhinhos” que a humildade não consiste em expressões verbais e aparências exteriores nem em atitudes subservientes.

Muitas pessoas supõem que pretos-velhos, índios e caboclos sejam serviçais para lhes atenderem aos pedidos. Outras acreditam que eles tenham poderes misteriosos, capazes de resolver de modo mágico os problemas dos consulentes. Parecem também julgá-los subornáveis, já que aceitariam agir em troca de algum “pagamento” ou compensação. Em verdade, uma evocação por rituais específicos convidam e condicionam certos espíritos a se apresentarem como preto-velhos, índios ou caboclos. E alguns espíritos, às vezes até os bonzinhos, adotam essa aparência para que assim as pessoas do meio em que se vão manifestar (“terreiro”) acolherão mais espontaneamente a sua apresentação e recomendações.

Enfatizamos porém, que se não estimularmos esse condicionamento, muitos espíritos deixarão de se apresentar como vermelhos, pretos, brancos, velhos, novos etc. etc. etc., passando a se comunicar em seu modo próprio e natural. Muitos entendem que os “vovôs”, “vovós”, “caboclos” e “pretos-velhos” são mais eficazes. Creem que as proteções que os Espíritos normais não obtêm os tais mágicos “velhinhos” e “índios” conseguem. Nada mais bisonho!

Sobre o linguajar de tais entes, observamos que a fala de “pretos velhos” não costuma corresponder aos legítimos dialetos africanos ou aportuguesamento deles de épocas remotas. É mais uma tagarelice, uma enrolação, uma confusão de vozes sem significado ou ligação com o que os africanos falavam. A isso classifico de mistificação. Sobre os tais caboclos, é óbvio que índios brasileiros não poderiam jamais se denominarem por exemplo “caboclos 7 flechas” (não tinham noção de número), não se autodenominariam “flecha ligeira”, “nuvem branca” etc., como o fazem os índios norte-americanos, os quais as academias de hollywood popularizaram nos filme de “bang bang”.

Em suma, somos espíritas cristãos, e como tais devemos nos comportar e agir no dia a dia, especialmente nas sessões mediúnicas. Em boa lógica, quem não acolha ou não se encaixe nos conceitos e práticas espiritas cristãs precisa procurar diferentes recintos afins, até porque nenhuma pessoa é constrangida a ser espírita cristã.

Jorge Hessen

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7 Comments to “UMBANDA E ESPIRITISMO CRISTÃO NUMA AVALIAÇÃO OPORTUNA”

  1. GERALDO MAGELA MIRANDA diz:

    Olá, caro Jorge.

    Sempre achei interessante essa abordagem do lado “preto velho” no espiritismo.
    No meu caso, e talvez o de muita gente, a noção primeira de espiritismo passava por terreiros e santos baixando. Desde criança via o que chamavam de “trabalhos” em encruzilhadas, invariavelmente com uma garrafa junto, de cidra por exemplo. É uma imagem que ficou, falando nisso agora.
    Isso trouxe a noção de misticismo, de coisas ocultas, do além, e que não se devia brincar nem tocar naquelas oferendas, nem mesmo passar perto delas, sob o risco de desagradar a tais entidades que as estariam recebendo. O resultado disso seria fatalmente maléfico.

    Só bem mais tarde é que fui compreender o que é Espiritismo. Não tive dúvida, a identidade apareceu de imediato, pois isso trouxe luz ao conceito da vida, até então completamente equivocado sob as ladainhas e pregações puramente religiosas. Não frequentei outro ambiente que não a Igreja Católica, mas digo hoje em dia que é um ritual formatado e prolixo, embora eu mesmo sinta um pouco mais de paz ao sair de um.
    Mas a Casa Espírita, em sua concepção verdadeira, sem as flechas e farofas, tem muito mais a nos dizer de eficaz para a compreensão da vida.
    Geraldo Magela Miranda

  2. Gostei imensamente deste Artigo, que tem por objetivo esclarecer as diferanças entre Espiritismo Cristão e o Ubandismo. Muitos Centro Espíritas trabalham uma mistura de Espiritismo Cristão e Umbandismo ao mesmo tempo. Se no planalto central funciona desse jeito, imagine aqui na Bahia onde foi a “porta de entrada” dos africanos no Brasil? Devido a essa mistura, muita gente pensa e acha que Espiritismo Cristão, Umbanda ou até mesmo Candomblé, são as mesmas coisas e, por isso muitos que não conhece o Espiritismo Cristão, falam que nos Centro se vê cabeças e outras partes de bois e até panelas voando, etc. É uma pena que, pessoas com esse tipo visão a respeito do Espiritismo Cristão, não tenham acesso a esclarecimento como este Artigo!
    Que a Paz e Luz do Cristo esteja conosco.
    Elmira Alves de Almeida

  3. Ione diz:

    Bom dia amigo

    Eu não entendo muito essa questão de “espírita cristã” ou “espiritismo cristão”. Entendendo que o espiritismo segue sempre o Cristo parece estranho colocar o Cristão ou cristã. Outro ponto, é a questão do venerando Dr. Bezerra de Menezes que se manifesta sempre através de Divaldo Franco, que como todos sabemos é merecedor de todo nosso crédito além de médium de nível acima da média comum. Se der para melhor colocar essa questão para meu entendimento, fico-lhe muito grata.
    Ione

    • Jorge Hessen diz:

      Ione
      Confesso-lhe que não utilizo o termo “Espiritismo cristão” , afora em casos extremos como demonstro no artigo (para não existir ambiguidade entre Espiritismo e Umbanda).
      Quanto ao “venerando Bezerra” que se “manifesta” através do médium Divaldo , digo que não consigo compreender a tal “incorporação” com curiosa voz de velho extenuado.
      Ione se você assistir os dois programas Pinga Fogo observará que Chico mesmo incorporado pelo Espirito Emmanuel não altera sua forma de falar, só as ideias que mudam.
      O Divaldo se permitiu tal psicofonia para mim completamente dispensável ao final das palestras e como é um líder há muitos anos , transformou a prática em modismos. Já esbarrei com uns dez oradores que ao final da palestra arremedam igualzinho (com mesmo tom de voz arrastada) o tribuno da Bahia..
      O Espiritismo carece com urgência volver à sua origem . Não sei se expliquei mas há imitadores do Divaldo por todos os lados. Eis aí a minha explicação da frase no artigo.

  4. Alex diz:

    Caro Jorge,

    O seu texto, sobre Umbanda e Espiritismo, foi encaminhado a mim pelo Erealdo Rocelhou.
    Achei a sua argumentação simplesmente impecável, e, principalmente, muito corajosa.
    Concordo plenamente com você quando alerta que não há nenhuma necessidade de o espírito se mostrar apegado a formas que o caracterizaram na existência terrena.
    É evidente que nenhum mal se vislumbra em bem receber o irmão desencarnado que se apresenta como “Vovô Tal”, ou “Pai Fulano”; é um dever cristão a tolerância amorosa e esclarecedora, aproveitando-se a oportunidade para conhecer melhor e, se for o caso, instruir o espírito.
    Mas, é fato incontestável que a casa espírita está preparada para manifestações . . . espíritas, que se distanciem o máximo possível de formatos exteriores e rituais.
    A primeira casa espiritualista, a que compareci, há quase quarenta anos, era de Umbanda, maravilhou-me pela sinceridade e correção dos médiuns; na ocasião, recebi uma mensagem pessoal perfeita, exatamente a que eu precisava ouvir.
    Serei eternamente grato e devedor desses irmãos da Umbanda.
    Por isso mesmo, entendo que o irmão interessado na manifestação umbandista deve procurar a instituição que atua nessa linha.
    Aos interessados no conhecimento espírita, cumpre buscá-lo no ambiente que segue os ensinamentos de Allan Kardec.
    A propósito, tenho uma sobrinha, que mora em São Paulo, é espírita ativa, sendo casada com um nissei que é trabalhador, também atuante, num centro umbandista.
    Ambos representam um maravilhoso e dignificante exemplo de tolerância recíproca e compreensão, constituindo, com os dois filhos, uma família exemplar.
    Entretanto, é infelizmente inevitável que alguns irmãos, incluindo espíritas, julguem apressada e impensadamente o seu texto, nele vislumbrando suposta incitação à resistência ante o fenômeno umbandista, com o que se afastariam da realidade de suas palavras.
    Por isso, preciso ressaltar e enaltecer a sua coragem e sinceridade, endossando-as.

    Grande abraço fraterno,
    S.J.R.

  5. Alfredo J Rodrigues
    https://luzdoconsolador.wordpress.com/
    alfredojr@123mail.org
    191.248.190.196
    Submitted on 2015/10/30 at 3:43 pm
    Prezado Jorge Hessen
    Muito interessante seu artigo UMBANDA E ESPIRITISMO CRISTÃO NUMA AVALIAÇÃO OPORTUNA, no que concordo plenamente, sobretudo acerca da advertêcia na forma como os médiuns dão vazão às manifestações de tais espíritos e o cuidado na avaliação de suas comunicações. Todavia, visando ampliar a educação do espírita, sobretudo dos médiuns, acredito que seria oportuno proporcionar aos leitores algumas referencias bibliográficas adicionais, de boa procedência, que tratam dos assuntos em questão.
    No artigo em pauta seria interessante, por exemplo, citar “Ciência Espírita e suas Implicações Terapêuticas, cap. 9. Negros e Índios Terapeutas, e “O Centro Espírita”, ambas obras de J. Herculano Pires e ainda “Dramas da Obsessão” de Yvonne A Pereira, cap. 4, e Recordações da Mediunidade, da mesma autora.
    Abraço Fraterno
    Alfredo J Rodrigues

  6. Wagner Guarienti diz:

    Caro Jorge,

    Ainda bem jovem tive contato com o que chamavam de Mesa branca, com Índios, Preto-Velho, crianças etc. Foi muito útil para minha formação, pois me estimulou a questionar o porque de certas necessidades de despachos e entregas de oferendas, sendo que as entidades não utilizavam mais a matéria física. As respostas NUNCA foram convincentes, o que manteve adormecido o desejo do saber. Com a maturidade e a formação profissional, o desejo foi aumentando até os devidos esclarecimentos através de Kardec. A busca por novos conhecimentos me levaram até o Magnetismo Animal, onde me envolvo atualmente e através dessa busca, tenho encontrado muitas pessoas com quem podemos dividir os conhecimentos obtidos, através das redes sociais.
    Parabéns pelo trabalho esclarecedor.
    Abs
    Wagner Guarienti

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